Jackson Cionek
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Quando o Nós desperta movimentos que o UM ainda não conhecia

Quando o Nós desperta movimentos que o UM ainda não conhecia

Confiança, pertencimento e improviso: transcender-se Ser no Entre Nós

A nadadora e aquilo que ainda não podia perceber

Imagine que você seja uma nadadora artística. Sozinha, conhece a coreografia: mergulha, gira e retorna à superfície no instante previsto. Seu corpo antecipa gestos que repetiu centenas de vezes.

Agora começa a treinar com outras atletas. Uma colega se aproxima. Outra modifica discretamente sua posição. Você precisa reconhecer distâncias, tempos e trajetórias que antes não importavam.

Aquilo que você sabia Fazer sozinha já não basta para realizar o movimento que nasce entre vocês.

Mas a dificuldade contém uma possibilidade: talvez o encontro desperte percepções que seu repertório individual ainda não conhecia. Isso não ocorre automaticamente. Depende também das condições em que o desconhecido aparece.

Confiança para experimentar, pertencimento para mudar

E se cada erro provocasse humilhação? Talvez você repetisse apenas o movimento seguro. Agora imagine colegas que permitem perguntar, corrigir e recomeçar. Você pode tentar algo diferente sem temer a expulsão do grupo.

Amy Edmondson investigou a segurança psicológica como condição associada à aprendizagem em equipes. Não significa que acolhimento produza inovação inevitavelmente; significa que o risco de errar pode ser vivido de outra maneira.

Precisamos de confiança para experimentar o que ainda não sabemos Fazer e de pertencimento para deixar de Ser apenas aquilo que já conhecemos.

Transcender-se Ser não é apagar o passado nem dissolver o UM. É permitir que o pertencimento sobreviva à transformação.

Durante a mudança, o que ainda não vemos?

No texto da BrainLatam sobre os 150 segundos de Hutcheon, encontramos uma advertência metodológica: observar só o antes e o depois pode esconder a própria transição. Hutcheon e colaboradores registraram relações entre EEG e oxigenação durante uma condição experimental de hipóxia, diferentes das observadas após relativa estabilização.

O estudo não demonstra criatividade aumentada pela hipóxia. Tampouco autoriza buscar desempenho cerebral por alterações de oxigenação.

Nossa pergunta é outra: o que acontece enquanto uma pessoa ainda não sabe executar o movimento que está aprendendo?

A incerteza pode favorecer exploração e aprendizagem quando existe apoio; sob ameaça ou sobrecarga, pode restringi-las. Precisamos estudar a transição sem romantizar o sofrimento.

O controle está Entre Nós

Imagine um bando de aves. Uma altera a trajetória, outras ajustam distâncias e a organização coletiva se transforma. Em certos sistemas, padrões emergem de interações locais, sem um comandante que determine cada gesto.

Na piscina, uma atleta percebe o desalinhamento. Outra responde. A primeira precisa corrigir novamente. Parte da regulação ocorre na relação.

Isso não significa ausência de liderança, planejamento ou responsabilidade. Significa que a iniciativa pode circular e que quem conduz também precisa escutar o acontecimento.

O controle de um coletivo Jiwasa pode emergir Entre Nós, desde que seus integrantes conservem possibilidades de perceber, corrigir e transformar a direção compartilhada.

O cavalo não é uma ferramenta do cavaleiro

Diante de um obstáculo, você prepara a postura. O cavalo encontra o terreno com suas próprias capacidades perceptivas e motoras. Ele ajusta o ritmo; você modifica o equilíbrio; essa resposta altera novamente o movimento do animal.

Pesquisas biomecânicas identificam coordenação entre cavalo e cavaleiro, mas sincronização não prova intenção ou consciência unificadas.

O cavalo continua sendo cavalo; o cavaleiro continua sendo cavaleiro. O movimento compartilhado depende de uma relação, não da eliminação de suas diferenças. E sua qualidade inclui respeitar os limites e o bem-estar do animal.

Improvisar é transformar a preparação

Imagine dois músicos. Você prepara uma nota; o outro introduz uma pausa. Sua mão pode obedecer ao plano ou reconhecer o silêncio e oferecer outra resposta.

Improvisar não é desconhecer os acordes. É utilizar o aprendizado para encontrar possibilidades que ainda não estavam previstas.

Na hipótese da Completude do Movimento, mobilização, percepção, gesto, retorno, significado e transição não exigem executar tudo o que foi preparado. Interromper uma resposta pode completar sua transformação.

Pesquisas sobre improvisação coletiva mostram que intenções compartilhadas podem emergir durante a própria atividade. Mas improvisar não garante reciprocidade: também é possível improvisar sob comando rígido.

Os sentimentos também encontram novas possibilidades

Você conhece sua parte musical, mas teme errar. Durante o ensaio, alguém acolhe sua hesitação e oferece uma referência. A nota permanece igual, mas a antecipação pode passar do medo à confiança.

A investigação sobre música conjunta considera coordenação, expectativa e experiências afetivas. Não demonstra que os participantes sintam emoções idênticas.

Talvez o Nós amplie também o repertório de sentimentos que cada UM consegue experimentar. Pertencer não precisa significar sentir o mesmo: pode significar ter espaço para sentir diferentemente e continuar criando juntos.

Os Wright e a realidade que se transforma

Imagine defender uma solução com convicção. Seu interlocutor sustenta outra. E se precisassem trocar de posição?

David McCullough relata debates intensos entre Wilbur e Orville Wright, por vezes terminados com cada irmão defendendo a posição antes ocupada pelo outro. Não é prova de um protocolo formal universal, mas ilustra a flexibilidade de perspectiva.

Posso defender um aspecto e perceber determinada realidade. Ao defender outro, encontro relações que antes não reconhecia.

Os Wright também testavam modelos e corrigiam medições. O ar não precisava concordar com nenhum deles. O Entre Nós não cria verdade por consenso; oferece oportunidades de confrontar interpretações com evidências. Estudos sobre perspectivas discordantes identificaram benefícios para certas estimativas, sobretudo difíceis, não para todas.

APUS, Tekoha e o território que participa

Na elaboração autoral da BrainLatam, APUS aproxima a propriocepção estendida das possibilidades de posição, alcance e movimento. Tekoha abre questões sobre interocepção e território vivido. Esses usos não substituem seus sentidos indígenas originários.

A nadadora percebe novas distâncias. O músico percebe a pausa. Mas o território do encontro não acaba nos corpos humanos.

Ailton Krenak nos convida a reconhecer rios, árvores, montanhas e outros seres como participantes das relações da vida, não meros recursos disponíveis aos humanos. Em Ideias para adiar o fim do mundo, questiona a separação entre humanidade e Terra.

Talvez transcender-se Ser seja descobrir, Entre Nós, movimentos, sentimentos e interpretações que nosso repertório individual ainda não conhecia - reconhecendo um Nós que inclui rios, árvores, montanhas e outros seres.

Não afirmamos que uma montanha possua cognição humana. Reconhecemos que suas condições e transformações participam efetivamente do nosso Fazer.

Consciência 5D e a diferença entre juntos e Jiwasa

Na hipótese da Consciência 5D: “Consciência é um movimento que se percebe Ser no metabolismo produzido.” Isso não significa controle consciente de todos os processos metabólicos.

No Quorum Sensing Humano, investigamos se encontros recíprocos ampliam percepção, antecipação, sentimentos e escolha. EEG e fNIRS podem oferecer medidas complementares, mas sincronização neural não comprova consciência coletiva.

Uma multidão também pode obedecer sincronizada. No Jiwasa que propomos, a diferença precisa conservar a possibilidade de transformar a direção comum.

Na natação artística, respiração e apneia acrescentam exigências fisiológicas. CO₂ elevado não significa melhor desempenho cerebral, e hipóxia pode ser perigosa. Esses efeitos devem ser estudados separadamente da reciprocidade.

O Estado também precisa poder aprender

Imagine uma comunidade decidindo sobre um rio. Uma pessoa conhece as cheias, outra depende da pesca, outra percebe mudanças na mata. Nenhuma perspectiva esgota o território.

Ouvir não basta: é preciso permitir que informações mudem decisões. E reconhecer, com Krenak, que o rio não é somente um recurso disputado por humanos.

O Estado-Jiwasa, como proposta filosófica, precisaria criar condições para discordar sem perder pertencimento, corrigir rumos e responder às consequências vividas por humanos e demais seres.

Confiança não é unanimidade. Pertencimento não é obediência.

O que o Nós pode despertar?

Voltemos à nadadora: outras atletas tornam visíveis trajetórias desconhecidas. Ao cavalo e ao cavaleiro: o obstáculo exige ajustes recíprocos. Aos músicos: a pausa permite um movimento não previsto. Aos Wright: a divergência abre interpretações sujeitas à prova.

Em cada caso, o aprendizado anterior permanece, mas deixa de ser limite definitivo.

Talvez transcender-se Ser seja poder abandonar o movimento previsto sem perder nosso lugar Entre Nós.

A pergunta que levamos à investigação é: o treinamento coletivo, sob condições de confiança e pertencimento, pode ampliar capacidades individuais e compartilhadas de sentir, perceber, antecipar e agir, sobretudo quando a transição exige improvisar?

E se esse Nós também envolve rios, árvores, montanhas e outros seres, nossa responsabilidade deixa de terminar onde acaba a coreografia humana.


Referências comentadas

Krenak, Ailton (2019). Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das Letras.

Questiona a separação entre humanidade e Terra e a redução dos rios, montanhas e florestas à condição de recursos. Fundamenta a ampliação ética e ontológica do Nós para além dos humanos, em diálogo com o conceito autoral de Estado-Jiwasa.

Krenak, Ailton (2020). A vida não é útil. Companhia das Letras.

Desenvolve a compreensão da vida como relação e continuidade que atravessa rios, montanhas e florestas, permitindo questionar uma concepção exclusivamente humana de pertencimento.

Edmondson, Amy (1999). Psychological Safety and Learning Behavior in Work Teams. Administrative Science Quarterly, 44(2), 350–383.

Relaciona segurança psicológica a comportamentos de aprendizagem em equipes. Oferece fundamentos para investigar confiança, experimentação, reconhecimento de erros e preservação do pertencimento.

Hutcheon, Evan A. et al. (2023). Associations between spontaneous electroencephalogram oscillations and oxygen saturation across normobaric and hypobaric hypoxia. Human Brain Mapping.

Estudo das relações entre EEG e oxigenação em condições experimentais de hipóxia. Inspira a investigação das transições, mas não demonstra aumento de criatividade ou plasticidade cognitiva pela redução de oxigenação.

Goupil, Louise et al. (2021). Emergent Shared Intentions Support Coordination During Collective Musical Improvisations. Cognitive Science, 45(1), e12932.

Investiga experimentalmente como intenções compartilhadas podem emergir durante improvisações musicais coletivas, favorecendo a coordenação sem necessidade de um planejamento integralmente anterior.

Beaty, Roger E. (2015). The neuroscience of musical improvisation. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 51, 108–117.

Revisão sobre improvisação musical, criatividade, controle cognitivo e processos motores. Fundamenta a compreensão do improviso como transformação de repertórios aprendidos.

Sebanz, Natalie; Bekkering, Harold; Knoblich, Günther (2006). Joint action: Bodies and minds moving together. Trends in Cognitive Sciences, 10(2), 70–76.

Examina mecanismos de ação conjunta, antecipação e representação das tarefas de outras pessoas, contribuindo para distinguir execução individual e organização coletiva.

Lagarde, Julien; Peham, Christian; Licka, Theresia; Kelso, J. A. Scott (2005). Coordination dynamics of the horse-rider system. Journal of Motor Behavior, 37(6), 418–424.

Analisa padrões biomecânicos de coordenação entre cavalo e cavaleiro. A coordenação não é interpretada como evidência de consciência unificada entre os organismos.

McCullough, David (2015). The Wright Brothers. Simon & Schuster.

Biografia que descreve a colaboração e as divergências entre Wilbur e Orville Wright, incluindo ocasiões em que passaram a defender posições anteriormente sustentadas pelo outro.

National Air and Space Museum — Smithsonian Institution. Researching the Wright Way.

Apresenta a investigação aerodinâmica dos Wright, incluindo medições, testes e revisão de hipóteses. Fundamenta a distinção entre concordância interpessoal e confronto das interpretações com evidências.

Van de Calseyde, Philippe P. F. M.; Efendić, Emir (2022). Taking a Disagreeing Perspective Improves the Accuracy of People's Quantitative Estimates. Psychological Science, 33(6), 971–983.

Examina experimentalmente como considerar perspectivas discordantes pode favorecer determinadas estimativas quantitativas, sem implicar que toda discordância melhore decisões.

Van de Calseyde, Philippe P. F. M.; Efendić, Emir (2025). Disagreeing Perspectives Enhance Inner-Crowd Wisdom for Difficult (but Not Easy) Questions. Psychological Science.

Mostra que os benefícios de considerar outra perspectiva dependem da dificuldade da questão, reforçando a necessidade de avaliar empiricamente a qualidade das interpretações.

De Jaegher, Hanne; Di Paolo, Ezequiel (2007). Participatory sense-making: An enactive approach to social cognition. Phenomenology and the Cognitive Sciences, 6, 485–507.

Desenvolve a produção participativa de sentido, oferecendo uma base para investigar como a interação modifica possibilidades individuais e coletivas de ação e interpretação.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2026). O cérebro durante a mudança - os 150 segundos de Hutcheon.

Aprofunda a importância metodológica de observar a dinâmica da mudança, e não apenas comparar estados iniciais e finais.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2026). A maravilha de Ser muitos sem deixar de Ser.

Desenvolve a hipótese da emergência relacional em coletivos, preservando as diferenças entre os participantes e distinguindo sincronização de reciprocidade.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2026). Quando nos reunimos - liberdade, alostase e o “um entre nós”.

Explora confiança, pertencimento, regulação compartilhada e a emergência do coletivo sem anulação dos Corpos-Territórios.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2026). Completude do Movimento.

Apresenta a hipótese autoral da Completude do Movimento, aqui relacionada à interrupção e transformação de movimentos preparados durante encontros recíprocos.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2026). APUS e Tekoha — Como o mundo entra no corpo e o corpo retorna ao mundo.

Desenvolve interpretações autorais da propriocepção e interocepção estendidas, preservando a distinção entre essas propostas e os significados culturais indígenas originários.

Cionek, Jackson. Religare — Religiosidade Plena em um Estado Democrático, Laico e de Direito.

Obra filosófica autoral sobre liberdade de Ser, pertencimento e organização compartilhada, em diálogo com a emergência do Estado-Jiwasa.

Nota científica e conceitual: O diálogo com Ailton Krenak amplia filosoficamente o pertencimento para rios, árvores, montanhas e outros seres, sem atribuir a ele os conceitos neurofisiológicos da BrainLatam. Confiança, improvisação e reciprocidade possuem fundamentos científicos investigáveis, mas a emergência do Jiwasa e a hipótese da Consciência 5D permanecem propostas autorais.

Princípio central: Precisamos de confiança para experimentar o desconhecido e de pertencimento para transcender-nos Ser. E, quando reconhecemos que o Nós também envolve rios, árvores, montanhas e outros seres, nossas possibilidades e responsabilidades deixam de terminar em nós mesmos.


BrainLatam · W44/2026 · Consciência 5D · Quorum Sensing Humano · Estado-Jiwasa














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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States