Jackson Cionek
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Quando a sincronia não basta para formar um nós

Quando a sincronia não basta para formar um nós

I-mode, We-mode e a hora em que o coletivo entra no corpo

Tem uma pergunta que a gente pode sentir no corpo antes mesmo de responder com teoria: quando duas pessoas se coordenam, isso já é um “nós”? Ou ainda pode ser só um ajuste fino entre interesses separados, cada um protegendo o seu tempo, o seu ganho e a sua estabilidade?

Esse Blog começa justamente aí, porque a gente quer sair de uma neurociência que olha o indivíduo como se ele viesse pronto e isolado, e entrar numa neurociência relacional de verdade. A pergunta já não é apenas o que um cérebro faz diante de um estímulo. A pergunta passa a ser: o que muda quando cérebros, corpos, metas e espaço percebido começam a reorganizar juntos a própria qualidade da ação?

Os estudos recentes de Aial Sobeh ajudam a abrir essa porta. Em um trabalho sobre câmaras de eco, grupos homogêneos tenderam a posições mais extremas, enquanto a sincronia interbral no córtex pré-frontal dorsolateral apareceu ligada à mitigação desse extremismo. Em outro, com 200 participantes divididos em grupos de quatro discutindo dilemas morais com fNIRS, maior sincronia interbral no giro frontal inferior esquerdo durante a deliberação previu maior alinhamento moral depois da conversa. O ponto importante, para a gente, é simples: aquilo que acontece entre cérebros durante a interação participa da formação do juízo coletivo. O entre não é enfeite. O entre muda o resultado.

Mas aqui aparece a pergunta decisiva. Sincronia já é coletividade vivida? A resposta mais honesta é não. Dois cérebros podem se ajustar sem que exista, de fato, um “nós” incorporado. Pode haver convergência sem compromisso comum. Pode haver coordenação sem agência compartilhada. Pode haver acoplamento sem pertencimento.

É justamente por isso que o experimento com I-mode e We-mode ganha tanta força para a gente. A beleza dele está no fato de que a tarefa sensório-motora continua praticamente a mesma, enquanto a arquitetura da ação muda. Depois de um atraso variável, aparece um sinal visual de “go”, e cada participante pressiona uma tecla. A variável principal é a diferença temporal entre as respostas. Até aí, tudo parece limpo, simples e elegante. Só que o sentido da tarefa se bifurca. No We-mode, se a diferença entre os tempos fica abaixo do limiar, os dois ganham; se não, os dois perdem. A meta é compartilhada, e o sucesso também. No I-mode, a interdependência continua, mas a recompensa é individualizada: se a diferença fica abaixo do limiar, o mais rápido ganha e o mais lento perde; caso contrário, ambos perdem. O gesto é parecido. O tempo é parecido. O estímulo é parecido. O que muda é a forma de estar ali juntos.

Essa distinção é muito importante porque desmonta uma confusão frequente: coordenação não é a mesma coisa que coletividade. A gente pode ajustar o tempo do outro por cálculo privado. A gente pode cooperar porque isso melhora o próprio saldo. A gente pode parecer harmonizado por fora e continuar organizado, por dentro, por razões separadas. É isso que Raimo Tuomela ajuda a formalizar quando diferencia I-mode e We-mode: no I-mode, a ação conjunta continua fundada em razões privadas; no We-mode, a ação passa a ser vivida como ação de grupo, sustentada por compromisso comum com uma meta partilhada.

Só que, na nossa lente BrainLatam2026, a diferença entre I-mode e We-mode não deveria aparecer apenas no que a pessoa diz depois da tarefa. Ela deveria aparecer no corpo. Em como a respiração organiza o gesto. Em como a musculatura sustenta ou endurece a ação. Em como a atenção se distribui. Em como o outro é percebido: como obstáculo, como referência, ou como parte de um compasso comum. A gente não quer só perguntar qual regra foi entendida. A gente quer perceber qual corpo começou a existir ali.

E aqui entra um insight que amplia muito o problema: antes mesmo de cooperar, competir ou sincronizar, a gente precisa se situar. Em qualquer ambiente, a gente percebe um espaço, um volume, um campo de ação dentro do qual vai se localizar, se ambientar, respirar, ajustar a postura e construir uma forma de presença. Esse referenciar-se no espaço não é detalhe periférico. Ele já participa da construção do eu em situação.

Na nossa linguagem, isso significa algo forte: o Eu Tensional não entra pronto no experimento. A gente vai montando esse eu ali, dentro de um espaço percebido. Ele se modula pelo ciclo respiratório, pela interocepção, pela propriocepção e pelo recrutamento de memórias corporais e práticas necessárias para sustentar um modo de estar dentro daquele volume. O eu, então, não é apenas uma identidade psicológica abstrata. Ele também é uma solução corporal para habitar um espaço e agir dentro dele.

A literatura recente sobre bodily self-consciousness e peripersonal space ajuda a ratificar essa intuição. O espaço próximo ao corpo não é apenas distância geométrica; ele funciona como zona viva de ação, percepção, emoção e relação com outros. A autoconsciência corporal também não nasce de uma única via sensorial, mas da integração entre múltiplos sinais, incluindo interocepção, propriocepção e presença, isto é, a percepção de estar localizado em algum lugar. Isso conversa profundamente com o que a gente está propondo aqui: o “nós” não se forma apenas entre intenções; ele começa a ganhar corpo dentro de um espaço percebido e co-habitado.

Quando a gente relê os trabalhos de Sobeh por essa lente, eles ficam ainda mais ricos. No estudo sobre alinhamento moral, a sincronia interbral no giro frontal inferior esquerdo durante a deliberação previu maior alinhamento posterior. Isso mostra que o coletivo entra na formação do juízo. Mas a nossa pergunta pode ir um pouco além: talvez a passagem do ajuste instrumental para a agência compartilhada dependa também de como dois ou mais corpos conseguem co-habitar um mesmo campo percebido de ação, e não apenas acertar um tempo. Talvez o “nós” não nasça só da meta compartilhada, mas da forma como a gente encontra um chão corporal comum para sustentar essa meta.

Esse ponto é decisivo para a Mente Damasiana. Se mente não é uma entidade flutuando acima do corpo, mas um processo vivido na integração entre interocepção, propriocepção e ação situada, então a diferença entre I-mode e We-mode não pode ser procurada apenas no nível da regra cognitiva. Ela precisa ser procurada também na forma como o corpo organiza a própria presença. Em linguagem do Monismo de Triplo Aspecto, isso fica ainda mais nítido: não faz sentido separar de maneira rígida o fisiológico, o subjetivo e o informacional-social, porque a experiência do “nós” atravessa justamente esses três planos.

Isso também nos aproxima de O Despertar de Tudo. Uma das grandes contribuições desse horizonte é lembrar que o comum não precisa ser pensado só como hierarquia, contrato ou competição. Existem formas de coordenação humana em que a vida coletiva não apaga singularidades nem reduz tudo a interesse privado. É nesse ponto que o nosso uso de Jiwasa ganha força. Jiwasa, aqui, não é um plural retórico. É um “a gente” incorporado. Um “a gente” que não dissolve o corpo individual, mas também não reduz a relação a cálculo. Um “a gente” que sente o espaço, organiza a presença e encontra um compasso partilhado.

Por isso, o experimento que a gente vai desenhando aqui pode ficar ainda mais potente se acrescentar duas camadas ao núcleo do tempo de reação. A primeira é a camada corporal clássica: respiração, ECG com HRV/RMSSD, EMG de masseter e trapézio, talvez GSR. A segunda é a camada espacial e de presença: marcadores neurais e comportamentais ligados à forma como a gente constrói self-location, orienta o corpo no espaço percebido e co-regula a presença com a do outro. Regiões associadas a circuitos parietais, pré-motores, TPJ, ínsula e intraparietal sulcus podem merecer atenção especial em estudos futuros, justamente porque o eu se organiza dentro de um espaço percebido, e não fora dele.

Essa ampliação metodológica também ajuda a impedir uma simplificação perigosa: confundir instrução com experiência. Dizer “vamos maximizar juntos” não garante, por si só, que um nós tenha emergido. O próprio debate do experimento deixa isso claro ao admitir que estratégias egocêntricas residuais podem sobreviver mesmo em condições de meta compartilhada. E deixa claro outro ponto essencial: We-mode não é altruísmo. O que define o We-mode não é parecer bondoso, mas agir a partir de uma meta genuinamente comum, com sucesso compartilhado e compromisso mútuo.

É por isso que esse blog não quer apenas descrever um problema para quem lê. A gente quer que a própria leitura já comece a funcionar como um pequeno exercício de We-mode. A gente não está olhando um objeto distante. A gente está entrando junto numa pergunta: quando a coordenação deixa de ser instrumental e começa a virar um nós encarnado? Quando o corpo deixa de apenas monitorar o outro como ameaça ou referência externa e passa a sustentar um campo comum de ação?

Nesse ponto, APUS aparece de maneira muito natural. Não existe eu sem corpo-território. Não existe agência sem orientação espacial. Não existe coletivo sem volume percebido, sem campo de ação compartilhado, sem presença distribuída. O nós não paira acima do mundo; ele precisa de chão, distância, gesto, respiração e orientação. E isso prepara também a entrada de DREX Cidadão. Porque o problema do I-mode e do We-mode não é apenas filosófico ou laboratorial. Ele é institucional. Existem sociedades que colocam a gente em interdependência permanente, mas sob recompensa individualizada, vigilância difusa e tensão corporal crônica. Isso é I-mode estrutural. E existem arranjos possíveis que podem sustentar metas comuns com segurança material mínima e menor sequestro fisiológico. Nessa chave, DREX Cidadão pode ser pensado como tecnologia política do “a gente”: uma tentativa de dar base metabólica ao comum para que ele deixe de ser só palavra.

No fim, a frase que este Blog quer fazer a gente sentir é simples: nem toda sincronia forma um nós. O futuro da neurociência decolonial dos coletivos depende de a gente distinguir pelo menos quatro coisas que a cultura mistura o tempo todo: ajuste temporal, cooperação instrumental, agência compartilhada e construção espacial do eu em situação. Os estudos de Sobeh mostram que o que acontece entre cérebros já participa do destino moral e político do grupo. O paradigma I-mode/We-mode abre um caminho elegante para separar coordenação de compromisso comum. E o insight sobre espaço e volume percebidos amplia ainda mais a questão: o nós não se constrói apenas entre intenções, mas dentro de um espaço habitado, respirado e percebido junto.

Talvez seja exatamente aí que a neurociência dos coletivos comece a mudar de patamar: quando a gente parar de perguntar apenas se dois cérebros sincronizam e começar a perguntar em que espaço, com que corpo e em nome de que “a gente” essa sincronia passa a existir.

Referências

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Brunello, N., Diana, L., Sritharan, J., Glisic, M., Nef, T., Verma, R. K., & Zito, G. A. (2025). A systematic review and meta-analysis on the neural correlates of bodily self-consciousness. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 179, 106420. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2025.106420

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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States