Jackson Cionek
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PRODUZIR EXCESSO, EXPORTAR TERRITÓRIO

PRODUZIR EXCESSO, EXPORTAR TERRITÓRIO

Quando a liberdade de escolher começa pela possibilidade de não se destruir

Um navio deixa o porto.

Em seus compartimentos seguem grãos, minérios, madeira, energia e milhares de litros de água incorporados à produção.

Os números registram crescimento. O mercado celebra a exportação. O PIB aumenta.

No território, o rio está mais baixo. A poeira alcançou as casas. A estrada dividiu a mata. Parte da riqueza partiu, enquanto o Corpo-Território permaneceu com os efeitos.

Talvez a América Latina não seja pobre.

Talvez esteja organizada para produzir riqueza sem decidir plenamente o destino dessa riqueza.

Atividades baseadas em recursos naturais respondem por aproximadamente metade das exportações latino-americanas, mas representam parcelas bem menores do valor agregado e do emprego regional. A dependência de produtos básicos também deixa economias vulneráveis às oscilações de preços e às decisões tomadas por compradores externos. (CEPAL)

A pergunta que permanece na margem é:

Quanto de um território pode ser exportado antes que seus habitantes deixem de possuir condições reais para escolher seu próprio futuro?

Trocar não nos condena a uma única economia

Em O despertar de tudo, David Graeber e David Wengrow mostram que as sociedades humanas combinaram trocas, mercados, propriedades, cidades e formas políticas de maneiras muito diferentes.

A existência de objetos utilizados como valor — grãos, conchas, pedras, penas ou metais — não significa que o capitalismo contemporâneo sempre tenha existido.

Significa algo mais fértil:

Seres humanos sempre foram capazes de criar, experimentar e abandonar regras econômicas.

Mercados não nasceram com uma única forma. Propriedade, autoridade e troca foram organizadas de maneiras diversas ao longo da história. Essa variedade abre espaço para imaginar novas formas de liberdade e organização social. (David Graeber)

O mercado financeiro atual não é uma lei da natureza.

Ele foi construído por regras que definem quem recebe crédito, quais ativos podem gerar rendimento, quais riscos são protegidos e quais prejuízos permanecem fora da contabilidade.

Essas regras também podem mudar.

Quando destruir aumenta o PIB

Imagine uma comunidade que sempre bebeu água de um rio.

Enquanto o rio permanece limpo, ele sustenta pessoas, plantações, animais e memórias sem precisar passar por uma caixa registradora.

Depois, a água é contaminada.

A comunidade começa a comprar garrafas. Caminhões realizam entregas. Embalagens são produzidas. Empresas de tratamento são contratadas. Hospitais atendem novos adoecimentos. Obras públicas tentam reparar o dano.

Mais dinheiro circula.

O PIB pode crescer.

O rio saudável, que produzia vida continuamente, quase não aparecia no indicador. O rio degradado passa a movimentar uma cadeia de mercadorias, tratamentos e reconstruções.

O problema não está em calcular o PIB.

Ele oferece informações importantes sobre a produção econômica.

O problema começa quando aumento do PIB se transforma em sinônimo automático de progresso.

Podemos produzir mais porque estamos vivendo melhor.

Também podemos produzir mais porque estamos pagando para sobreviver ao que foi destruído.

O olhar que vê rendimento antes de ver vida

Governos de diferentes orientações políticas entregam frequentemente a condução econômica a profissionais formados para observar inflação, juros, dívida, investimentos e confiança dos mercados.

Esses elementos são importantes.

Mas o mercado financeiro olha o mundo a partir de uma posição específica: procura rendimento, segurança, liquidez e possibilidade de saída.

Uma floresta pode aparecer como madeira, concessão ou crédito.

Um rio pode aparecer como energia, irrigação ou abastecimento comercial.

Uma comunidade pode aparecer como mão de obra, consumo ou custo de compensação.

O investidor pode sair.

O Corpo-Território permanece.

É ele que respirará a poeira, procurará outra fonte de água, enfrentará a enchente e reorganizará a vida quando o ciclo econômico terminar.

A produção de excesso começa quando um território passa a fornecer cada vez mais para necessidades definidas fora dele:

mais minério;

mais grãos;

mais madeira;

mais energia;

mais dados;

mais água incorporada.

A produção cresce, mas a autonomia pode diminuir.

Não é a maldade que explica todas as escolhas

Diante desse cenário, seria fácil concluir que seres humanos são naturalmente egoístas e sempre escolherão o ganho individual.

Humanidade, de Rutger Bregman, propõe outra percepção. O autor reúne estudos e experiências históricas para questionar a ideia de que somos essencialmente maus e movidos apenas pelo interesse próprio. Cooperação, confiança e solidariedade também pertencem profundamente à experiência humana. (Rutger Bregman)

Isso não significa que seres humanos nunca destruam, explorem ou matem.

Significa que essas ações não podem ser explicadas apenas como expressão de uma natureza humana inevitavelmente perversa.

Quando uma pessoa não possui alimento, moradia, renda ou perspectiva, o futuro pode diminuir diante dela.

Quem sente que não tem mais nada a perder pode aceitar riscos que recusaria em outras condições.

Na experiência que inspira este texto, já presenciamos pessoas dispostas a queimar matas ou até ferir outros seres humanos diante de necessidades extremas.

Esse testemunho não estabelece uma regra universal.

Ele revela um problema ético:

Podemos chamar de escolha livre uma decisão tomada quando todas as alternativas parecem conduzir à perda?

Pesquisas sobre escassez mostram que a falta de recursos pode concentrar a atenção nas urgências imediatas e aumentar a valorização de resultados presentes em relação aos futuros. Ao mesmo tempo, os resultados científicos não são uniformes: em algumas situações, pessoas sob escassez realizam escolhas mais consistentes justamente porque cada recurso possui maior importância. (Springer)

A necessidade não transforma automaticamente alguém em uma pessoa pior.

Ela modifica o horizonte dentro do qual a decisão acontece.

Primeiro devolver, depois investigar

É aqui que o Neuro Desafio Latam precisa mudar de direção.

Não devemos colocar pessoas em extrema necessidade diante de escolhas entre preservar e sobreviver para, depois, interpretar suas decisões como medida de consciência ambiental.

Primeiro precisamos devolver condições materiais de escolha.

Depois podemos investigar o que se torna possível.

A proposta é criar um Drex Cidadão, distribuído por meio de uma futura infraestrutura de CBDC de varejo.

Esse Drex Cidadão seria um rendimento incondicional:

não dependeria da resposta dada no experimento;

não seria retirado se a pessoa escolhesse “errado”;

não venceria após determinado prazo;

não controlaria compras lícitas;

não funcionaria como prêmio por obediência.

Ele chegaria antes.

O valor precisaria ser suficiente para reduzir a pressão das necessidades básicas, considerando alimentação, água, moradia, transporte e realidade local.

O Drex oficial ainda está em desenvolvimento. O piloto atual simula operações, sem usuários finais ou ativos reais, e o modelo divulgado pelo Banco Central prevê serviços de varejo liquidados principalmente por tokens de depósitos de instituições autorizadas. Portanto, o Drex Cidadão é uma proposta BrainLatam para uma futura arquitetura pública de varejo, não um benefício atualmente existente. (Banco Central do Brasil)

O Rendimento Bioma

Ao lado do Drex Cidadão, o território receberia um Rendimento Bioma.

Se uma floresta mantém a circulação da água, um manguezal reduz impactos de tempestades e um solo vivo retém carbono, nutrientes e umidade, existe ali uma produção material contínua.

Hoje, grande parte do dinheiro chega ao território quando alguém promete extrair, vender, construir ou endividar-se.

Podemos imaginar outra regra:

A continuidade comprovada do Bioma também pode colocar dinheiro novo em circulação.

Esse rendimento seria vinculado a indicadores territoriais construídos com participação local:

qualidade e disponibilidade da água;

biodiversidade;

carbono retido ou removido;

prevenção de enchentes e erosão;

regeneração do solo;

redução e reaproveitamento de resíduos.

O dinheiro teria como primeiros destinatários as pessoas que vivem e cuidam do Bioma, além de fundos comunitários de água, saúde, prevenção climática e restauração.

A Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais já reconhece funções como sequestro de carbono, purificação do ar, equilíbrio do ciclo da água e moderação de eventos extremos. A lei também estabelece prioridade para povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares em programas federais. (Planalto)

O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões criou outra estrutura possível para reconhecer reduções verificadas de gases de efeito estufa. (Planalto)

O Rendimento Bioma, porém, iria além de transformar a floresta em carbono.

O território participaria da definição das medidas, da governança dos dados e da distribuição dos recursos.

O experimento depois da devolução

Somente depois de um período recebendo Drex Cidadão e Rendimento Bioma começariam os testes.

Os participantes encontrariam situações envolvendo:

  • recompensa imediata e preservação futura;

  • benefício nacional e prejuízo local;

  • lucro individual e custo comunitário;

  • extração conhecida e alternativa regenerativa ainda incerta;

  • crescimento do PIB e manutenção da água.

As decisões poderiam envolver recursos reais e limitados de um fundo de pesquisa.

Uma parcela poderia ser destinada ao participante.

Outra poderia fortalecer água, restauração, produção comunitária ou prevenção de emergências.

Nenhuma escolha ameaçaria o rendimento básico já recebido.

O EEG poderia acompanhar expectativa, comparação, atenção e avaliação dos resultados.

A NIRS poderia observar o esforço pré-frontal durante conflitos entre vantagens presentes e consequências futuras.

Mas a análise principal compararia a mesma pessoa em diferentes momentos:

como ela imaginava o futuro sob necessidade extrema;

como passou a decidir após receber segurança material;

como suas escolhas mudaram quando o Bioma também passou a gerar rendimento para a comunidade.

Os sinais seriam combinados com relatos, comportamento e indicadores materiais.

A pergunta não seria:

Quem possui o cérebro mais ecológico?

Seria:

O que acontece com a capacidade de preservar quando a sobrevivência deixa de depender da destruição?

Quando preservar também permite viver

Podemos voltar ao porto.

Outro navio se prepara para partir.

Desta vez, o território participa da decisão sobre aquilo que pode sair e aquilo que precisa permanecer.

Quem vive ali já não precisa escolher entre alimentar a família e proteger a floresta.

A água possui presença na contabilidade.

O Bioma gera rendimento sem precisar desaparecer.

O cidadão participa da economia antes de vender sua atenção, sua força de trabalho ou o território em que vive.

Talvez a liberdade não comece no momento em que oferecemos duas opções.

Talvez comece quando nenhuma delas exige que a pessoa destrua a si mesma, sua comunidade ou o lugar que sustenta sua vida.

Quando o Drex Cidadão e o Rendimento Bioma chegam antes da decisão, uma nova pergunta se torna possível:

O que os seres humanos escolhem quando finalmente possuem algo a preservar — e condições materiais para preservá-lo?

Essa passagem nos leva ao próximo blog:

O Bioma não é cenário: é infraestrutura viva.

Referências essenciais

Bregman, R. Humanidade: uma história otimista do homem. 2020. (Rutger Bregman)

Graeber, D.; Wengrow, D. O despertar de tudo: uma nova história da humanidade. 2021. (David Graeber)

De Bruijn, E.-J.; Antonides, G. Poverty and Economic Decision Making: A Review of Scarcity Theory. 2022. (Springer)

Fehr, D.; Fink, G.; Jack, B. K. Poor and Rational: Decision-Making under Scarcity. 2022. (Chicago Journals)

CEPAL. Natural Resources Outlook in Latin America and the Caribbean. 2024. (CEPAL)

UNCTAD. The State of Commodity Dependence 2025. (UNCTAD)

Brasil. Lei nº 14.119/2021 — Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais. (Planalto)

Brasil. Lei nº 15.042/2024 — Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. (Planalto)

Banco Central do Brasil. Piloto e desenvolvimento do Drex. (Banco Central do Brasil)

Nesta estrutura, o experimento deixa de reproduzir a escassez que pretende compreender: primeiro amplia-se a agência material; depois se observa como a decisão se reorganiza.








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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States