Jackson Cionek
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Páscoa, cultura e senso de agência

Páscoa, cultura e senso de agência - Uma leitura de Neurociência Decolonial

Em neurociência, senso de agência é a experiência de perceber que “sou eu quem está fazendo isso” e que os efeitos da ação têm relação com a minha própria intenção. Esse senso não nasce só da vontade abstrata. Ele depende do encontro entre intenção, previsão do resultado, feedback do corpo e contexto social. A literatura mais recente também mostra que o senso de agência pode mudar quando a ação é mais voluntária ou mais guiada por instruções externas, e que ele ganha uma camada especialmente complexa quando a ação acontece dentro de práticas coletivas. (PubMed)

Quando a gente traz isso para uma Neurociência Decolonial, a pergunta fica mais forte. Já não basta perguntar se o cérebro “decidiu” uma ação. A gente também precisa perguntar: quem me ensinou a sentir que essa ação é minha? Quais narrativas, rituais, gestos e instituições foram moldando meu corpo para que eu me percebesse como alguém que crê, obedece, culpa, se arrepende, celebra ou se sacrifica de um certo modo? Trabalhos recentes que defendem a integração entre perspectivas indígenas e biomédicas em neurociência insistem justamente nisso: corpo, cultura, território e mente não podem ser tratados como mundos separados. (PubMed)

É aqui que a Páscoa se torna um exemplo muito forte. A Páscoa não é apenas uma ideia religiosa. Ela é também um roteiro corporal. Tem procissão, ajoelhar, cantar, jejuar, calar, responder em coro, carregar símbolos, esperar, vigiar, sofrer e depois celebrar. Ou seja: a narrativa pascal organiza postura, respiração, voz, atenção, dor, pertencimento e expectativa. A literatura recente sobre comportamentos motores religiosos mostra que rituais religiosos envolvem justamente esse entrelaçamento entre ação voluntária, ação guiada, experiência subjetiva e sentido cultural. (PubMed)

Por isso, a Páscoa pode ser lida de duas formas ao mesmo tempo. Em uma leitura, ela pode funcionar como captura cultural. A pessoa entra numa narrativa tão forte que passa a se perceber principalmente como aquilo que a tradição manda ser: culpada, obediente, salva, indigna, redimida, fiel. Quando isso endurece demais, o ritual pode operar mais perto de uma Zona 3: muita saliência, muita obediência, pouco espaço crítico, corpo estreito, pouca margem para voltar a si mesmo. Nessa condição, a pessoa não participa apenas da história; ela é carregada por ela quase sem perceber. Essa aplicação das zonas é uma formulação nossa, mas ela é coerente com o que a literatura descreve sobre redução do senso de agência quando a ação é mais fortemente determinada por uma fonte externa. (PubMed)

Mas a mesma Páscoa também pode funcionar de outro jeito. Se houver consentimento, pertencimento, segurança relacional e espaço interno para metabolizar a experiência, a narrativa pascal pode abrir uma Zona 2 dentro do ritual. A pessoa continua atravessada pela história, mas não desaparece dentro dela. Ela começa a perceber no próprio corpo o que vem dela e o que vem da cultura. Percebe o que é fé viva e o que é automatismo. O que é gesto incorporado e o que é papel repetido. Nesse caso, o ritual não produz apenas submissão; ele pode produzir consciência de estar sendo moldado. E isso já é um ganho de agência. Porque o papel imposto deixa de ser invisível. (PubMed)

É por isso que a Páscoa pode ser tão poderosa para uma leitura decolonial. Ela mostra que o ser humano nem sempre age a partir de uma autonomia pura. Muitas vezes, a gente age a partir de narrativas antigas que já entraram no corpo. A cultura não se impõe só por ideias; ela se impõe por voz, gesto, repetição, calendário, culpa, recompensa, sincronia coletiva e sensação de pertencimento. E justamente por isso a Páscoa pode servir como um espelho: ela permite perceber que muito do que a gente chama de “eu” talvez seja também uma forma treinada de responder ao mundo. Perspectivas indígenas recentes em neurociência defendem que esse tipo de reflexão é essencial para sair de uma visão colonizada do cérebro como máquina isolada e recuperar a relação entre mente, corpo e mundo vivido. (PubMed)

No nosso vocabulário, isso fica bem claro. Zona 1 é quando a narrativa organiza o corpo para agir: cantar, caminhar, ajoelhar, responder, participar. Zona 2 é quando a narrativa continua forte, mas o corpo ainda consegue variar, respirar, perceber e refletir. Zona 3 é quando a narrativa endurece demais e o corpo perde margem crítica, quase como se estivesse sequestrado por uma saliência única. Então, do ponto de vista da Neurociência Decolonial, senso de agência não é apenas “eu me movi”. É a capacidade de perceber: “eu estou participando desta narrativa”, em vez de apenas “estou sendo levado por ela sem perceber.” Essa passagem do ser levado para o perceber-se sendo levado talvez seja uma das formas mais importantes de agência crítica. (PubMed)

O mais interessante é que isso pode ser estudado. A gente poderia comparar uma leitura neutra, uma leitura pascal impositiva e uma leitura pascal reflexiva. Na primeira, quase não haveria captura narrativa. Na segunda, a história seria contada em tom normativo, com culpa e obediência. Na terceira, a história seria narrada com pertencimento, pausa corporal e espaço para interpretação. Com isso, daria para registrar EEG e EEG-DC para oscilação e mudanças lentas de estado, fNIRS para hemodinâmica pré-frontal, ECG para HRV e RMSSD, respiração, GSR, EMG facial e cervical, eye tracking para estreitamento atencional e vídeo sincronizado para postura e microexpressões. A hipótese seria simples: a condição mais impositiva tenderia a mais rigidez corporal e menor sensação explícita de autoria; a condição mais reflexiva tenderia a mais marcadores de Zona 2, com maior variabilidade e mais agência percebida. Essa proposta é uma inferência experimental nossa, apoiada por estudos atuais sobre fonte de instrução, agência, religiosidade motora e perspectivas decoloniais em neurociência. (PubMed)

No fundo, a Páscoa pode ser lida como uma grande pergunta neurocientífica: estou vivendo esta narrativa ou estou apenas sendo vivido por ela? E talvez a resposta mais madura não seja rejeitar o ritual nem se dissolver nele. Talvez seja aprender a perceber, no corpo, quando a cultura nos sequestra e quando ela nos oferece uma travessia real. A Neurociência Decolonial interessa justamente porque não quer destruir toda narrativa. Ela quer devolver ao corpo e à consciência a possibilidade de perceber como as narrativas entram, o que fazem com a gente e quando deixam espaço para um senso de agência mais vivo. (PubMed)

Ler bem é sentir no corpo o que a mente começa a entender.

Referências — sem links

Edwards S, et al. (2026). Effects of action instruction source on the sense of agency.
O que contém: estudo mostrando que a fonte da instrução externa pode alterar medidas implícitas e explícitas de senso de agência.
Como buscar: procurar no PubMed com PMID 41591543 ou pelo título exato. (PubMed)

Le Besnerais A, et al. (2024). Sense of agency in joint action: a critical review of we-agency.
O que contém: revisão crítica discutindo o senso de agência em ação conjunta e questionando a ideia de uma “agência coletiva” simples.
Como buscar: procurar no PubMed com PMID 38356772 ou pelo título exato. (PubMed)

Loehr JD. (2022). The sense of agency in joint action: An integrative review.
O que contém: revisão integrativa sobre como o senso de agência aparece em ações compartilhadas.
Como buscar: procurar no PubMed com PMID 35146702 ou pelo título exato. (PubMed)

Illes J, et al. (2025). Two-Eyed Seeing and other Indigenous perspectives for neuroscience.
O que contém: texto propondo integrar perspectivas indígenas e biomédicas para ampliar a neurociência com mais humildade e responsabilidade ética.
Como buscar: procurar no PubMed com PMID 39910384 ou pelo título exato. (PubMed)

Ganos C, et al. (2025). Voluntary and involuntary motor behaviours in the varieties of religious experience.
O que contém: artigo que organiza comportamentos motores religiosos à luz da neurociência do movimento e da volição.
Como buscar: procurar no PubMed com PMID 40051444 ou pelo título exato. (PubMed)




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New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States