Estamos nos aproximando do dia das mães e, com isso, resolvi contemplar como está a situação de mãe cientista durante o isolamento social. Em outro blog recente abordei um pouco sobre como estaria a situação da produção da mulher cientista durante a quarentena. Como estaria essa realidade da vida de uma Mãe cientista?

A bióloga Fernanda Staniscuaski e dois de seus filhos. Foto: Flávio Dutra / Jornal da Universidade – UFRGS.

 

Acima temos o exemplo da bióloga Fernanda Staniscuaski, responsável pelo Parent in Science, uma pesquisa que traz uma série de dados sobre o impacto da maternidade na carreira científica das mulheres brasileiras em 2017. Antes da pandemia ocasionada pelo Coronavírus, sua pesquisa mostrou que mães cientistas diminui drasticamente o número de publicações até o 4° ano após o nascimento do filho; só depois dessa faixa etária a produção volta a crescer.

Ainda no seu estudo, 54% das mães cientistas eram as únicas responsáveis pelo cuidado dos filhos, sendo a média de idade das participantes de 32 anos quando tiveram o primeiro filho, período este que seria o ápice da produção científica de pesquisadores. Quase 60% delas responderam que a maternidade teve um impacto negativo em suas carreiras, 22% responderam que o impacto foi “bastante negativo” e 45% disseram falta de tempo para trabalhar em casa. O estudo denuncia a falta de apoio das instituições às quais essa mães estão vinculadas em relação à maternidade, além dos impactos na saúde mental.

Existe, assim, um paradigma grande enfrentado pelas mães cientistas: Ser ou não ser mãe? Para elas, o tema da maternidade envolve a decisão de gerar novas vidas, que estarão ligadas ao clima cultural do ambiente profissional da mãe. Esse ambiente, na maioria das vezes, insiste em silenciar que o trabalho científico de qualidade, como qualquer outra atividade humana, exige um nível de satisfação pessoal  e que pode incluir a experiência da maternidade.

Esse questionamento pode ser resquícios do início ciência moderna, no séc. XVI. Onde a comunidade científica composta por homens afirmava que a atividade científica era inapropriada para mulheres. A lógica era que um homem se dedicaria ao trabalho produtivo e as mulheres ao reprodutivo. Outro ponto seria a falsa ideia que os seriam homens gênios, ou seja, com uma vida pessoal diferente dos demais membros da sociedade. 

Essa perspectiva de inferioridade da mulher ainda é tão forte, que mesmo nós representando metade da produção científica nacional, apenas 38% das cientistas brasileiras se tornam líderes de grupos de pesquisa em suas áreas de conhecimento. Com isso fica claro que apesar das cientistas realizarem um esforço excessivo para dar conta da produtividade acadêmica e dos filhos, sem o devido apoio, fica cada vez mais difícil alcançar toda a potencialidade da mulher na ciência. 

Como consequência, podemos pensar em pelo menos três situações distintas: a mulher que abre mão da maternidade por conta da carreira; a que abre mão da carreira por conta da maternidade e a que resolve conciliar pesquisa e maternidade e, possivelmente, vai encontrar muitas barreiras. O que vai de encontro a pesquisa da Fernanda, que relaciona a diminuição da produção científica ao tempo de licença maternidade e aos cuidados intensivos com os filhos nos primeiros anos de vida. 

Um estudo de 2018 na Universidade de Barth, no Reino afirmou que mães cientistas têm maior dificuldade para acessar financiamento para suas pesquisas e gerar atenção para os seus resultados em comparação a seus colegas do sexo masculino. A partir dessas pesquisas, só se pode afirmar que a cultura só muda se as mulheres estiverem conscientes de seu lugar e aumentarem as vozes nessa direção. 

Trazendo esses dados e relatos para o cenário atual de isolamento social, imagine que se durante a licença maternidade (período em que as mulheres ficam em casa com os filhos) a sua produção científica cai, só podemos concluir que o isolamento também tenha o mesmo efeito. Esta é nossa realidade, diminuição de produção científica durante a quarenta, onde as mães não têm outra opção a não ser trabalhar Home Office. 

Como vimos, já existem vários pontos que, normalmente, são fatores dificultantes de trabalho em casa. O problema é que durante o isolamento eles se agravam ainda mais, chegando a cair 50% da produção científica feminina. Fatores corriqueiros como divisão desigual de tarefas domésticas, responsabilidade maior ou exclusiva das mães aos filhos e falta de um ambiente propício à produção em Home Office (uma vez, que essas mães normalmente não trabalham em casa), acabam sendo, infelizmente e não igualitariamente sofrida por homens, os vilões ao trabalho científico feminino. 

 

Referências

 

FERRARI, Lilian Pereira. Mulheres na Ciência. Revista Expressão, v. 8, n. 1, 2019.

MACHADO, Leticia Santos et al. Parent in science: the impact of parenthood on the scientific career in Brazil. In: 2019 IEEE/ACM 2nd International Workshop on Gender Equality in Software Engineering (GE). IEEE, 2019. p. 37-40.

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