Jackson Cionek
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Quem ganha quando o dinheiro público perde o rastro? Eleições 2026 Presidente

Quem ganha quando o dinheiro público perde o rastro? Eleições 2026 Presidente

Fundos, renúncias fiscais, Banco Master e o desafio de impedir que poder e opacidade apaguem a história do dinheiro

Corrupção não rouba apenas dinheiro.

Quando milhões de reais deixam de chegar ao destino para o qual foram arrecadados, podem desaparecer junto consultas, medicamentos, escolas, saneamento, segurança, infraestrutura, aposentadorias e oportunidades que talvez nunca sejam recuperadas.

Mas existe uma forma mais sofisticada de captura do dinheiro coletivo.

Ela começa quando interesses privados ou criminosos não procuram apenas burlar uma regra, mas tentam aproximar-se de quem fiscaliza, administra fundos, concede benefícios, decide sobre o orçamento ou possui poder para alterar a própria regra.

É por isso que talvez uma das perguntas mais importantes das Eleições 2026 seja também uma das mais simples:

Se o dinheiro pertence à sociedade, por que sua história ainda pode desaparecer dentro do sistema?

Quem decidiu?

Quem recebeu?

Quanto recebeu?

Qual fundo participou?

Qual benefício tributário foi concedido?

Quem escreveu a regra?

O dinheiro mudou de fundo?

Foi enviado ao exterior?

E, principalmente:

o que a sociedade recebeu em troca?

A proposta deste texto não é acusar os candidatos à Presidência de corrupção nem usar seus patrimônios como indícios de irregularidade. As declarações de bens são fornecidas pelos próprios candidatos à Justiça Eleitoral e divulgadas pelo TSE no DivulgaCandContas. O manual eleitoral esclarece que os valores declarados integram o processo de registro e são publicados na internet. (Justiça Eleitoral)

O objetivo é outro: perguntar como cada proposta presidencial lida com dinheiro, Estado e fiscalização e, depois, apresentar uma proposta BrainLatam de rastreabilidade ampliada do dinheiro público.

O que os candidatos à Presidência propõem

Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à Presidência pelo PT

O programa de Lula, atual presidente e candidato à reeleição, defende fortalecimento e modernização do Estado, maior participação social, digitalização de serviços públicos e mudanças na gestão das emendas parlamentares. Na economia, mantém o Estado como indutor do desenvolvimento e das políticas sociais. (Portaltela)

Patrimônio declarado ao TSE: na ordem de R$ 4,8 milhões. Os valores patrimoniais resumidos neste artigo derivam das declarações eleitorais disponíveis no TSE. (BOL)

A pergunta BrainLatam é: recuperar capacidade de planejamento do Executivo resolve quem decide parte do orçamento, mas o cidadão conseguirá acompanhar o dinheiro depois que a decisão for tomada?

Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL

Flávio Bolsonaro propõe um forte corte de gastos, redução da estrutura administrativa, novo teto fiscal, privatizações e revisão de subsídios. Seu programa combina austeridade econômica com maior endurecimento na segurança pública. (Exame)

Patrimônio declarado ao TSE: na ordem de R$ 8,2 milhões. (BOL)

Reduzir o volume de gastos responde à pergunta quanto o Estado gasta.

A rastreabilidade acrescenta:

quem recebeu aquilo que continuou sendo gasto?

Romeu Zema, candidato à Presidência pelo Novo

Romeu Zema apresenta uma das propostas mais intensas de redução do tamanho do Estado entre os candidatos. Seu plano prevê ajuste fiscal, privatizações, reformas administrativa e previdenciária e revisão de programas públicos. (Exame)

Patrimônio declarado ao TSE: na ordem de R$ 178,7 milhões. (BOL)

Mas a trajetória de Zema como governador de Minas oferece um exemplo particularmente pertinente para este debate.

Durante sua gestão, a Eletrozema, empresa pertencente ao grupo empresarial de sua família e da qual Zema mantinha participação societária, recebeu aproximadamente R$ 2,28 milhões em créditos presumidos de ICMS. Os registros divulgados indicam o benefício a partir de 2024. O governo de Minas afirmou que se tratava da continuidade de um tratamento tributário setorial, concedido segundo critérios técnicos e legais, sem tratamento diferenciado em razão da composição societária. (Poder360)

Isso, sozinho, não demonstra corrupção nem favorecimento pessoal de Zema.

Existe, porém, outra questão.

Durante seu governo, Zema se posicionou contra a divulgação dos beneficiários individuais dessas renúncias, argumentando que a publicidade poderia revelar informações competitivas das empresas. A relação completa só veio a público posteriormente, depois de disputa judicial. Em 2025, os regimes especiais divulgados representaram aproximadamente R$ 19,4 bilhões em renúncia de ICMS, enquanto o total previsto de benefícios fiscais estaduais chegava a cerca de R$ 22,7 bilhões. (Folha de S.Paulo)

É aqui que o caso se torna relevante para a nossa pergunta.

Se o benefício é legal, tecnicamente justificável e impessoal, a transparência deveria protegê-lo, não ameaçá-lo.

Quando o governante possui interesses econômicos alcançados por uma política pública, saber quem recebeu, quanto recebeu, por qual regra e com qual resultado não deveria depender de uma batalha judicial posterior.

A legalidade do benefício não elimina a necessidade de transparência sobre o benefício.

E existe uma ampliação importante:

dinheiro público não é apenas aquilo que o Estado paga. Também precisamos enxergar aquilo que o Estado decide não cobrar.

Ronaldo Caiado, candidato à Presidência pelo PSD

Ronaldo Caiado propõe responsabilidade fiscal, estabilização da dívida pública, revisão de benefícios tributários e restrições ao crescimento das despesas. Em agosto, defendeu limitar constitucionalmente o crescimento dos gastos a até metade do crescimento do PIB. (CNN Brasil)

Patrimônio declarado ao TSE: na ordem de R$ 52,6 milhões. (BOL)

Revisar benefícios fiscais toca diretamente no problema discutido acima.

Mas revisar não basta.

É preciso saber quem recebe cada benefício, por quanto tempo e qual retorno social justifica a renúncia.

Renan Santos, candidato à Presidência pelo Missão

Renan Santos apresenta forte ajuste fiscal e reformas estruturais. Entre os elementos destacados de seu programa está uma Lei de Responsabilidade Gerencial, voltada a incorporar metas e critérios de desempenho à administração pública. (Folha de S.Paulo)

Patrimônio declarado ao TSE: na ordem de R$ 795 mil. (BOL)

Uma gestão por resultados poderia ganhar uma camada adicional:

quanto dinheiro entrou, quem executou e qual resultado mensurável apareceu no território?

Augusto Cury, candidato à Presidência pelo Avante

Augusto Cury propõe redução de despesas, déficit público próximo de zero e reformas institucionais, além de uma agenda ampla de educação e desenvolvimento humano. (UOL Notícias)

Patrimônio declarado ao TSE: na ordem de R$ 242,3 milhões. (BOL)

Equilíbrio fiscal informa se as contas fecham.

Transparência informa quem recebeu o dinheiro antes de elas fecharem.

Clariana Barão, candidata à Presidência pela Democracia Cristã

Clariana Barão propõe responsabilidade fiscal, revisão de gastos e subsídios, simplificação regulatória, concessões e PPPs. Na segurança pública, seu programa inclui explicitamente rastreamento financeiro de organizações criminosas e recuperação de ativos. (BOL)

Patrimônio declarado ao TSE: na ordem de R$ 1,8 milhão. (BOL)

A proposta traz uma conexão interessante:

se seguir o dinheiro ajuda a encontrar o crime organizado, seguir o dinheiro público pode ajudar a impedir que o crime chegue até ele.

Edmilson Costa, candidato à Presidência pelo PCB

Edmilson Costa propõe estatização do sistema financeiro, criação de um Banco dos Trabalhadores, suspensão do pagamento da dívida e reestatização de empresas privatizadas. (UOL Notícias)

Patrimônio declarado ao TSE: na ordem de R$ 454 mil. (BOL)

Quanto maior o controle estatal sobre o sistema financeiro, maior também precisa ser o controle da sociedade sobre quem controla o sistema estatal.

Hertz Dias, candidato à Presidência pelo PSTU

Hertz Dias integra uma proposta de ruptura mais profunda com o atual modelo econômico, com nacionalizações e ampliação de direitos sociais. (Folha de S.Paulo)

Não declarou bens ao TSE. (BOL)

Mudar a propriedade do sistema não elimina a opacidade automaticamente.

A caixa-preta pode ser privada ou estatal.

Rui Costa Pimenta, candidato à Presidência pelo PCO

Rui Costa Pimenta também apresenta um projeto de forte estatização e reorganização do sistema econômico e financeiro. (Folha de S.Paulo)

Não declarou bens ao TSE. (BOL)

Novamente surge a mesma pergunta:

quem controla o controlador?

Samara Martins, candidata à Presidência pela Unidade Popular

Samara Martins defende nacionalizações, incluindo mudanças profundas no sistema bancário, ampliação dos serviços públicos e combate à corrupção com confisco de bens nos casos previstos em sua proposta. A UP ampliou posteriormente o programa inicialmente registrado. (Nexo Jornal)

Patrimônio declarado ao TSE: na ordem de R$ 33 mil. (BOL)

Uma economia com maior controle público sobre os bancos exige também uma infraestrutura em que as decisões do próprio poder público sejam profundamente auditáveis.

Wilson Grassi, candidato à Presidência pelo Democrata

Wilson Grassi apresenta como um dos eixos centrais um Imposto Único Federal, acompanhado de desburocratização, automatização e digitalização da arrecadação e da administração. O plano associa a automatização à redução de fraude e de custos. (Polyapoio)

Patrimônio declarado ao TSE: na ordem de R$ 50 milhões. (BOL)

Sua proposta nos conduz naturalmente a outra pergunta:

se podemos automatizar a arrecadação, por que não automatizar parte da memória do gasto público?

Pablo Marçal, candidato registrado pelo PRTB, com situação eleitoral sob análise

Até agora, Pablo Marçal não apresentou plano oficial de governo suficientemente consolidado para permitir análise equivalente sem recorrer a declarações dispersas ou suposições. A síntese das candidaturas registrada nesta semana também aponta a ausência de plano oficial. (Folha de S.Paulo)

Patrimônio declarado ao TSE após retificação: na ordem de R$ 149,9 milhões. Uma declaração inicial continha erro de bilhões de reais em um investimento e foi posteriormente corrigida. (UOL Notícias)

Em 20 de agosto de 2026, o TSE decidiu cautelarmente impedir Marçal de utilizar fundos eleitorais, participar de debates e acessar propaganda gratuita enquanto analisa definitivamente seu registro. (UOL Notícias)

O episódio patrimonial, independentemente da disputa eleitoral, fornece uma lição simples:

transparência não significa que o erro nunca acontecerá. Significa que o erro pode ser encontrado, registrado e corrigido.

Legalidade é o piso. Não deveria ser o teto moral da democracia

Corrupção criminosa é ilegal.

Mas nem todo problema de integridade pública começa com alguém quebrando uma lei.

Uma norma pode favorecer grupos específicos.

Uma permissão pode ser ampliada.

Uma renúncia fiscal pode ser perfeitamente formal.

Um fundo pode obedecer às regras existentes.

Uma emenda pode percorrer todo o procedimento legislativo.

E ainda assim a sociedade pode — e deve — perguntar:

Quem escreveu?

Quem pediu?

Quem influenciou?

Quem recebeu?

Quem ganhou?

Por que não sabíamos?

O antigo mecanismo das emendas RP9, conhecido como orçamento secreto, é um exemplo histórico importante. O STF o declarou inconstitucional em 2022 por violar princípios de transparência, impessoalidade, moralidade e publicidade, especialmente pela ausência de identificação clara dos proponentes e destinatários. (STF Noticias)

E a preocupação não desapareceu com o nome RP9.

Em julho de 2026, o STF intimou presidentes de 21 partidos a explicar eventual participação na definição, distribuição ou operacionalização de emendas parlamentares, justamente para aperfeiçoar os mecanismos de transparência e rastreabilidade. (STF Noticias)

O próprio Supremo já advertiu em decisões posteriores:

mudar o rótulo não torna constitucional uma prática opaca.

A Corte afirmou que práticas capazes de reproduzir o orçamento secreto precisam ser afastadas independentemente da nomenclatura utilizada. (STF Noticias)

Essa é uma ideia extremamente importante.

A democracia não pode ser um concurso para encontrar um nome tecnicamente legal para a próxima caixa-preta.

Quando o crime organizado deixa de fugir do Estado

Existe uma imagem simplificada do crime organizado: alguém escondido da polícia, tentando operar fora das instituições.

As organizações criminosas mais sofisticadas podem buscar algo muito mais valioso:

entrar nas instituições.

Na economia formal.

Em empresas.

Em fundos.

Em contratos.

Em campanhas.

Em partidos.

Em administrações públicas.

E, no limite, aproximar-se daqueles que escrevem as regras.

O risco é concreto o suficiente para que o Ministério Público Eleitoral tenha expedido em 2026 recomendações para que partidos criem mecanismos de integridade, governança e fiscalização destinados especificamente à prevenção da infiltração de organizações criminosas no processo eleitoral. (Biblioteca MPF)

Isso não autoriza dizer que o Congresso pertence ao crime organizado.

Seria falso.

Mas autoriza uma conclusão menos confortável:

Grupos econômicos e organizações criminosas suficientemente poderosos possuem incentivo para influenciar as instituições que definem os limites de sua atuação.

E o Banco Master tornou essa discussão muito menos abstrata.

Banco Master: quando a investigação chega até quem escreve a regra

Em investigações envolvendo o Banco Master, a Polícia Federal passou a apurar uma proposta apresentada pelo senador Ciro Nogueira que aumentaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.

Segundo a PF, reproduzida em decisão judicial e reportagens sobre o caso, o texto teria sido elaborado pela assessoria do próprio Banco Master e entregue para apresentação no Senado. Ciro Nogueira nega ter praticado atividade ilícita e contestou aspectos da investigação. A proposta original acabou rejeitada. Portanto, estamos falando de uma investigação, e não de uma condenação definitiva. (Folha de S.Paulo)

Mas a hipótese investigada é extremamente relevante para qualquer democracia.

Uma coisa é procurar uma brecha numa regra.

Outra é tentar aumentar a própria brecha.

O estágio mais perigoso de um interesse ilícito talvez não seja aquele em que ele pergunta “como fugir da lei?”. Pode ser aquele em que começa a perguntar “como me aproximo de quem faz a lei?”.

É por isso que lobby, elaboração legislativa e interesses econômicos também precisam de transparência.

Não porque conversar com parlamentares seja crime.

Mas porque o cidadão deveria conseguir descobrir quem participou da construção de uma regra e quem ganharia economicamente com ela.

E quando o dinheiro pertence aos aposentados?

O caso Master chegou também à RioPrevidência.

A Polícia Federal investiga aproximadamente R$ 3,6 bilhões em recursos da previdência dos servidores fluminenses aplicados em Letras Financeiras e fundos relacionados ao Banco Master. A RioPrevidência administra recursos ligados ao pagamento de aposentadorias e benefícios de mais de 235 mil servidores ativos e inativos. Segundo a decisão judicial que autorizou diligências, os investigadores encontraram indícios de atuação política na viabilização dos aportes. São fatos sob investigação e não condenações definitivas. (Agência Brasil)

Observe a natureza do dinheiro.

Não era simplesmente capital especulativo de alguém disposto a correr risco.

Era patrimônio ligado à aposentadoria de servidores.

Depois ele entra no sistema financeiro.

Passa por letras.

Fundos estruturados.

Gestores.

Empresas.

Intermediários.

E quanto mais camadas aparecem, mais difícil pode se tornar responder uma pergunta elementar:

onde terminou cada parcela?

Dinheiro da aposentadoria financiou Dark Horse?

Essa é justamente uma pergunta na qual precisamos ser intelectualmente rigorosos.

Com base nas informações públicas disponíveis até 20 de agosto de 2026, não podemos afirmar que recursos da RioPrevidência tenham sido destinados ao filme Dark Horse.

Não existe evidência pública suficiente para fazer essa afirmação.

E não devemos transformá-la em acusação.

O que sabemos é diferente.

Flávio Bolsonaro reconheceu ter procurado Daniel Vorcaro em busca de financiamento para o filme sobre Jair Bolsonaro. As informações reveladas sobre as tratativas indicam que Vorcaro repassou cerca de R$ 61 milhões para a produção. Flávio nega que tenha oferecido qualquer contrapartida irregular. (Folha de S.Paulo)

Uma perícia privada contratada pela defesa da produtora afirmou que Dark Horse custou aproximadamente R$ 75 milhões e que não identificou recursos públicos entre os documentos que analisou. Segundo essa perícia, os recursos vieram do fundo norte-americano Havengate. O próprio laudo, porém, limita sua conclusão ao material apresentado à perícia, e a PF ainda analisava mecanismos para acessar informações protegidas pelo sigilo daquele fundo. (CNN Brasil)

Há ainda outra peça do quebra-cabeça.

Relatórios de inteligência financeira do Coaf analisados pela imprensa apontaram que o fundo Gold Style, administrado pela Reag, realizou transações com a Entre Investimentos, empresa usada em repasses relacionados ao filme. O mesmo fundo também apareceu em operações com outras empresas investigadas. Segundo o material analisado pelo Coaf, estruturas em camadas dificultavam identificar os responsáveis finais e rastrear algumas movimentações. (Folha de S.Paulo)

E aqui está o ponto central:

Hoje não podemos afirmar que dinheiro da aposentadoria dos servidores financiou Dark Horse. Mas um cidadão comum também não dispõe de uma trilha pública única e completa capaz de acompanhar, de ponta a ponta, todos esses recursos através de fundos, empresas, ativos e jurisdições.

Isso é muito diferente de acusar alguém.

Na realidade, é justamente uma defesa de evidência em vez de acusação.

Porque a falta de rastreabilidade prejudica os dois lados.

Ela dificulta provar uma irregularidade.

E dificulta encerrar definitivamente uma suspeita falsa.

Transparência também protege inocentes

Imagine uma infraestrutura capaz de responder:

“Alguma parcela desses recursos previdenciários chegou a determinado fundo?”

Sim ou não.

“Alguma parcela desse fundo terminou naquele investimento?”

Sim ou não.

“Essa empresa recebeu dinheiro cuja origem era um recurso público?”

Sim ou não.

A resposta não dependeria apenas da confiança na palavra de um político.

Nem da acusação de seu adversário.

Nem de milhares de páginas recompostas anos depois.

A própria trilha financeira responderia.

Transparência não serve apenas para encontrar corruptos.

Serve para proteger quem não participou da corrupção.

Protege o gestor correto.

A empresa correta.

O fundo correto.

O político injustamente acusado.

O investidor.

O aposentado.

Quanto melhor o rastro, menos espaço existe tanto para esconder crime quanto para fabricar culpa sem prova.

O mercado financeiro precisa de sigilo. Mas dinheiro público não pode desaparecer dentro dele

Seria falso afirmar que o mercado financeiro não possui fiscalização.

Existem Banco Central, CVM, Coaf, auditorias, compliance, sigilo regulado e regras de prevenção à lavagem de dinheiro.

E privacidade financeira é um direito importante.

O problema aparece quando estruturas destinadas a proteger a confidencialidade legítima também tornam extremamente difícil identificar o beneficiário econômico final e a origem de determinados recursos.

No caso Gold Style, por exemplo, relatórios citados pela imprensa apontaram debêntures privadas sigilosas e estruturas nas quais não era possível identificar publicamente quem estava por trás de determinadas movimentações. (Folha de S.Paulo)

Portanto, talvez precisemos de uma regra muito simples:

Dinheiro privado merece privacidade. Dinheiro público exige memória.

E podemos acrescentar:

dinheiro da aposentadoria pública exige memória.

subsídio público exige memória.

renúncia fiscal exige memória.

garantia pública exige memória.

Eletrozema mostra que nem sempre o dinheiro precisa sair do caixa

Voltemos ao caso de Romeu Zema.

O Estado não precisou realizar uma transferência bancária de R$ 2,28 milhões para a Eletrozema.

O benefício ocorreu através do sistema tributário.

O Estado abriu mão de arrecadação por meio de crédito presumido de ICMS.

Isso demonstra que nossa discussão não pode limitar transparência ao dinheiro que é pago diretamente pelo Tesouro.

Precisamos acompanhar também decisões como:

quem recebeu benefício fiscal?

quanto deixou de pagar?

por qual regra?

por quanto tempo?

qual autoridade supervisionou?

qual retorno econômico justificou o benefício?

O governo mineiro sustenta que o tratamento concedido à Eletrozema seguia regras setoriais e não estava relacionado ao vínculo societário de Zema. É exatamente por isso que a transparência teria sido útil desde o início: permitiria que a sociedade verificasse essa afirmação sem precisar esperar uma decisão judicial para conhecer os beneficiários. (Poder360)

Quando a decisão é correta, transparência fortalece sua legitimidade. Quando não é, transparência ajuda a descobri-la.

É aqui que o Drex pode mudar a pergunta

Uma correção é fundamental.

O Drex não rastreia hoje todo o dinheiro brasileiro.

O projeto do Banco Central continua em desenvolvimento.

Mas existe uma característica tecnológica importante.

O próprio Banco Central afirma que uma infraestrutura DLT para o Drex pode oferecer elevado grau de auditabilidade, rastreabilidade e transparência, permitindo novas ferramentas de supervisão e regulação. (Banco Central do Brasil)

É daqui que nasce a proposta BrainLatam.

Não de transformar o Brasil num sistema de vigilância sobre cada compra privada.

Mas de construir uma camada radicalmente mais transparente quando a origem do recurso for pública.

O dinheiro público poderia carregar sua própria história

Imagine R$ 1 bilhão pertencente a um fundo público de aposentadoria.

Ele entra em determinado investimento.

Registro.

Vai para um fundo.

Registro vinculado.

O fundo compra outro ativo.

Registro.

O ativo é negociado.

Registro.

Uma parcela chega a uma empresa.

Registro.

A empresa transfere recursos para outra instituição.

A trilha continua.

Parte cruza a fronteira brasileira.

Dentro das competências nacionais permanecem registrados origem, instituição, operação cambial, justificativa e contraparte declarada.

Isso não significa que cada real precise de um número de série.

A arquitetura poderia vincular digitalmente ativos, tokens, direitos, contratos, fundos e finalidades.

O dinheiro pode mudar de representação.

Sua origem pública não deveria desaparecer.

E a fraude?

Continuaria existindo.

Tecnologia não transforma uma pessoa corrupta em honesta.

Ainda podem existir notas falsas.

Empresas de fachada.

Superfaturamento.

Laranjas.

Conluio.

Documentos adulterados.

Mas existe uma enorme diferença.

Hoje, uma investigação complexa pode precisar reconstruir anos depois dezenas ou centenas de relações separadas.

Com uma arquitetura concebida para rastreabilidade, parte importante dessa história já teria nascido registrada.

Quanto mais camadas fossem criadas para esconder o dinheiro, mais registros e incoerências precisariam ser produzidos.

A fraude não desapareceria.

Teria de enfrentar o rastro.

O Brasil já possui um exemplo dessa lógica

A Controladoria-Geral da União utiliza a ferramenta Alice para analisar automaticamente documentos de compras e licitações públicas.

Em 2024, o sistema examinou mais de 118 mil processos de compras, direcionou 214 auditorias envolvendo R$ 26,17 bilhões e a CGU contabilizou cerca de R$ 1,25 bilhão em benefícios financeiros decorrentes das ações preventivas. (Serviços e Informações do Brasil)

A inteligência artificial não prende ninguém.

Não julga ninguém.

Não substitui a Justiça.

Mas consegue enxergar padrões que seriam muito difíceis de localizar manualmente.

Agora imagine essa capacidade conectada a uma trilha financeira de origem pública muito mais estruturada.

Porque governos passam

Existe ainda uma razão para que isso seja institucional, e não partidário.

Lula não governará para sempre.

Nem Flávio Bolsonaro.

Nem Zema.

Nem Caiado.

Nem qualquer candidato desta eleição.

Presidentes passam.

Congressos mudam.

Diretores de autarquias são substituídos.

Chefes de órgãos de fiscalização mudam.

Prioridades políticas mudam.

Mas o rastro não deveria mudar com eles.

O combate à corrupção não pode depender de termos o governante certo no momento certo.

O sistema precisa ser capaz de fiscalizar inclusive aquele que o controla temporariamente.

A pergunta que deveria sobreviver a todas as Eleições 2026

Lula, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Augusto Cury, Clariana Barão, Edmilson Costa, Hertz Dias, Rui Costa Pimenta, Samara Martins, Wilson Grassi e Pablo Marçal apresentam visões profundamente diferentes de Estado.

Uns querem reduzi-lo.

Outros ampliá-lo.

Uns querem privatizar.

Outros estatizar.

Uns querem diminuir impostos.

Outros ampliar a presença estatal no sistema financeiro.

Mas nenhuma dessas diferenças elimina uma verdade:

corrupção pode existir em qualquer modelo.

Ela encontra terreno fértil quando três elementos conseguem se combinar:

dinheiro, poder e opacidade.

Por isso, uma regra deveria sobreviver a qualquer eleição:

Nenhum presidente, parlamentar, partido, banco, fundo, empresa ou organização deveria conseguir transformar dinheiro público em dinheiro sem história.

Se entrou em um fundo, deixa registro.

Se saiu, deixa registro.

Se mudou de fundo, a trilha continua.

Se recebeu subsídio, sabemos quem recebeu.

Se ganhou benefício fiscal, sabemos quanto o Estado deixou de arrecadar.

Se cruzou fronteiras, sabemos sob qual operação deixou o país.

Se financiou uma obra, encontramos a obra.

Se pertencia à aposentadoria, conseguimos seguir o patrimônio.

E quando aparecer uma pergunta como:

“Esse dinheiro terminou financiando algo para o qual nunca deveria ter sido destinado?”

a resposta do Estado não deveria depender de fé política.

Nem de esquerda.

Nem de direita.

Deveria depender de evidência.

Talvez o maior potencial democrático do dinheiro digital não seja fazê-lo circular mais rápido.

Talvez seja tornar cada vez mais difícil roubar, ocultar, fragmentar ou apagar a história do dinheiro público.

Porque governos passam.

Mandatos terminam.

Leis mudam.

Fundos mudam de nome.

Empresas mudam de controlador.

Mas o dinheiro pertencente à sociedade não deveria ganhar o direito de perder a memória.

Sua história também é patrimônio público.

Referências principais

  • Tribunal Superior Eleitoral. DivulgaCandContas, dados abertos das candidaturas e regras para declaração pública de bens e propostas de governo nas Eleições 2026. (Justiça Eleitoral)

  • Planos e propostas dos 13 candidatos à Presidência registrados para as Eleições 2026. (Folha de S.Paulo)

  • Declarações patrimoniais apresentadas pelos candidatos ao TSE, incluindo a retificação de Pablo Marçal. (BOL)

  • Poder360 e Folha de S.Paulo. Benefício fiscal de aproximadamente R$ 2,28 milhões à Eletrozema, posição do governo mineiro e histórico da publicidade das renúncias fiscais. (Poder360)

  • STF. Inconstitucionalidade das emendas RP9 e medidas posteriores para ampliar transparência e rastreabilidade das emendas parlamentares. (STF Noticias)

  • Ministério Público Eleitoral. Recomendações para prevenção da infiltração de organizações criminosas no processo eleitoral de 2026. (Biblioteca MPF)

  • Investigações sobre a chamada Emenda Master e possível participação de integrantes do banco na elaboração do texto apresentado ao Congresso. (Folha de S.Paulo)

  • Agência Brasil. Investigação de aproximadamente R$ 3,6 bilhões de recursos da RioPrevidência aplicados em estruturas relacionadas ao Banco Master. (Agência Brasil)

  • Investigações e documentos públicos relacionados aos R$ 61 milhões associados ao financiamento de Dark Horse, ao Havengate e às estruturas financeiras intermediárias. (Folha de S.Paulo)

  • Banco Central do Brasil. Referências técnicas do Drex sobre DLT, auditabilidade, rastreabilidade e transparência. (Banco Central do Brasil)

  • Controladoria-Geral da União. Resultados da ferramenta Alice no monitoramento automatizado de compras públicas. (Serviços e Informações do Brasil)









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Jackson Cionek

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