Jackson Cionek
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Quem decide quando você acredita que decidiu sozinho?

Quem decide quando você acredita que decidiu sozinho?

Quando as palavras começam a prender

Série Especial BrainLatam — SBNeC 2026

Vamos começar de um lugar comum.

Abrimos o celular.

Vemos um rosto.

Uma notícia.

Uma frase nos irrita.

Outra nos tranquiliza.

Alguma coisa parece familiar.

Seguimos rolando.

Horas ou dias depois precisamos escolher:

comprar;

compartilhar;

acreditar;

ou votar.

Então dizemos:

“Eu decidi.”

E provavelmente decidimos.

Mas podemos investigar juntos uma pergunta anterior:

Quando essa decisão realmente começou?

No momento da escolha?

Ou muito antes, quando alguma experiência nos ensinou o que esperar, temer, desejar ou reconhecer?

Talvez a decisão comece antes do “eu escolhi”

Nós não chegamos a nenhuma escolha vazios.

Chegamos com:

memórias;

histórias;

medos;

afetos;

valores;

pessoas importantes;

experiências anteriores.

Uma palavra pode encontrar uma memória.

Uma memória pode criar uma expectativa.

Essa expectativa pode mudar como sentimos o que aparece depois.

E então nossa atenção se move.

Podemos observar juntos uma possível espiral:

experiência
→ memória
→ expectativa
→ emoção
→ atenção
→ julgamento
→ ação.

Depois a ação produz outra experiência.

E tudo começa novamente.

Não precisamos aceitar essa sequência como verdade fechada.

Podemos testá-la.

Religião, Política e Ciência talvez já estejam acontecendo em nós

BrainLatam propõe uma analogia simples.

Religião → Expectar / Transcender → Legislativo

Quando representamos:

“isso deveria acontecer”

ou:

“isso não pode acontecer”.

Política → Julgar / Escolher → Judiciário

Quando perguntamos:

“entre essas possibilidades, qual considero melhor?”

Ciência → Fazer → Executivo

Quando agimos e encontramos as consequências.

Não estamos dizendo que religião institucional, política partidária e ciência acadêmica sejam a mesma coisa.

Estamos perguntando se suas operações fundamentais também aparecem na experiência em primeira pessoa.

E se aparecem, talvez possamos observá-las em nós.

Antes de julgar, talvez já tenhamos sentido

Pense em algo que você rejeita imediatamente.

Pode ser uma pessoa.

Uma palavra.

Um partido.

Uma comida.

Uma música.

Por que a reação apareceu tão rápido?

Talvez não saibamos.

Mas sabemos que o Corpo-Território possui uma história.

Aquilo que vivemos participa do que esperamos.

E aquilo que esperamos pode participar do que sentimos.

Nossa hipótese BrainLatam não é:

“Religião é emoção.”

É mais cuidadosa:

Nossa camada de valores, significados, memórias e expectativas pode participar da maneira como uma possibilidade é sentida antes de ser julgada.

Talvez algumas decisões comecem aí.

Yãy hã mĩy pode abrir uma janela

Os Tikmũ’ũn/Maxakali nos oferecem o conceito Yãy hã mĩy, relacionado à transformação.

Não queremos reduzir uma palavra ancestral a uma tradução rápida.

Mas podemos deixá-la abrir uma pergunta.

Nós aprendemos muito observando.

Imitamos.

Repetimos.

Incorporamos.

Depois algo passa a parecer:

natural.

óbvio.

meu.

Mas será que tudo o que aprendemos a repetir precisa continuar sendo repetido?

No Yãy hã mĩy Estendido, BrainLatam propõe uma sequência:

observar
→ imitar
→ repetir
→ perceber
→ variar
→ transformar.

Talvez liberdade não esteja em nunca imitar.

Talvez esteja também em perceber quando já podemos transformar aquilo que aprendemos.

Isso acontece conosco nas redes?

Agora podemos olhar juntos para o celular novamente.

Nós clicamos.

A plataforma registra.

Nós paramos mais tempo em determinado conteúdo.

Ela aprende alguma coisa sobre nosso comportamento.

Depois mostra outro conteúdo parecido.

Nós reagimos novamente.

Temos outra espiral:

atenção
→ clique
→ dado
→ previsão
→ recomendação
→ nova atenção.

E se juntarmos as duas?

Nossa espiral

memória
→ expectativa
→ emoção
→ atenção
→ julgamento.

Espiral da plataforma

atenção
→ dado
→ recomendação
→ nova atenção.

Agora aparece uma pergunta mais interessante do que:

“o algoritmo controla você?”

Podemos perguntar:

O que acontece quando uma máquina aprende quais conteúdos conseguem chamar nossa atenção justamente porque encontram algo que já existe em nossa história?

Não estamos fora dessa relação.

Nós também treinamos o sistema enquanto ele participa do que veremos depois.

Estamos juntos nessa espiral.

Jiwasa.

E o dinheiro?

A atenção possui valor.

Quem possui mais recursos pode:

aparecer mais;

anunciar mais;

testar mais mensagens;

segmentar públicos;

repetir mais.

Isso não significa comprar automaticamente uma decisão.

Mas pode significar possuir maior poder de repetição.

Então podemos começar a perguntar:

Por que vi isso tantas vezes?

Quem pagou para que isso aparecesse?

O que não apareceu?

Essa última pergunta talvez seja a mais importante.

Porque somos influenciados não apenas pelo que percebemos.

Também pelas possibilidades que nunca chegaram ao nosso campo perceptivo.

E quando chega o momento do voto?

Imagine que uma mensagem consegue nos fazer representar:

“se esse candidato vencer, algo muito importante para mim estará ameaçado.”

A representação pode produzir emoção.

A emoção pode tornar certos conteúdos mais salientes.

Nós clicamos.

Vemos mais.

Lembramos mais.

Depois chegamos à urna.

E dizemos:

“eu escolhi.”

Sim.

Mas podemos acrescentar:

Que futuro eu estava tentando aproximar ou evitar quando escolhi?

Essa pergunta devolve parte da agência.

Religare: observar a própria escolha enquanto ela acontece

Talvez seja aqui que Religare encontre uma função simples.

Não precisamos sair da vida para observar nossa consciência.

Podemos perguntar:

O que estou esperando?

O que estou sentindo?

O que capturou minha atenção?

Por que estou julgando dessa maneira?

O que estou prestes a fazer?

E depois:

o resultado confirma aquilo que eu esperava?

Assim:

Expectar
→ Sentir
→ Julgar
→ Fazer
→ Observar
→ Revisar.

Nenhuma dessas etapas precisa ser perfeita.

O importante é que a espiral continue aberta.

Talvez autonomia não seja escolher sem influência

Nós nunca escolhemos sem influência.

Temos:

família;

território;

cultura;

linguagem;

memória;

emoção;

tecnologia;

relações.

Talvez autonomia não seja eliminar tudo isso.

Talvez seja aumentar nossa capacidade de perceber:

o que está participando da escolha enquanto ainda existe tempo para escolher diferente.

Aqui Ciência, Política e Religião deixam de ser assuntos distantes.

Elas retornam para nós.

O que espero?

Como julgo?

O que faço?

E, em Jiwasa:

o que nossas escolhas estão fazendo conosco, com os outros e com o território que compartilhamos?

Pergunta BrainLatam

Antes de dizer “eu escolhi”, conseguimos perceber juntos o que aprendemos a esperar, o que essa expectativa nos fez sentir e se ainda podemos transformar aquilo que aprendemos a repetir?


Referências e janelas conceituais

Pessoa, L. (2022). The Entangled Brain. MIT Press. Integra percepção, cognição, emoção, motivação e ação em uma perspectiva de sistemas interdependentes.

Bernal, F. A. et al. (2022). Pesquisa argentina sobre repetição, valência emocional, atenção e tomada de decisão.

Aruguete, N.; Calvo, E. et al. (2024). Experimentos na Argentina, Brasil, Chile e Colômbia mostrando que diferentes enquadramentos de informações factualmente equivalentes podem produzir diferentes respostas emocionais e de engajamento.

Sueli Maxakali e Isael Maxakali. Yãy hã mĩy, no contexto Tikmũ’ũn/Maxakali, relacionado à transformação. O Yãy hã mĩy Estendido é uma elaboração BrainLatam e não uma tradução literal do conceito originário.







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Jackson Cionek

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