Jackson Cionek
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Quando o som guia o corpo: sincronia sensório-motora e os ritmos do movimento humano

Quando o som guia o corpo: sincronia sensório-motora e os ritmos do movimento humano

O estudo de Matamala-Gomez e colegas (2026) investiga uma questão central para compreender como o cérebro organiza o movimento humano: como diferentes modalidades sensoriais influenciam a sincronização entre percepção e ação corporal. Utilizando uma tarefa de caminhada corporal combinada com estímulos sensoriais, os autores analisaram como entradas auditivas, audiovisuais e visuais modulam o fenômeno conhecido como sensorimotor frequency tagging, uma técnica que permite observar como o cérebro sincroniza suas oscilações com estímulos rítmicos externos.

O principal resultado é bastante claro: a marcação de frequência sensório-motora foi significativamente aumentada quando os participantes receberam estímulos auditivos ou audiovisuais, mas não quando receberam apenas estímulos visuais. Em outras palavras, o som possui um papel privilegiado na sincronização entre cérebro e movimento corporal, enquanto sinais puramente visuais não geram o mesmo nível de acoplamento sensório-motor.


Sincronia Sensório-Motora e os Ritmos do Movimento Humano
Sincronia Sensório-Motora e os Ritmos do Movimento Humano

O que o artigo demonstrou

O experimento analisou como estímulos rítmicos externos se alinham às oscilações naturais do sistema sensório-motor durante uma tarefa de caminhada. Por meio da análise de frequency tagging, os pesquisadores conseguiram observar como as respostas neurais seguiam a periodicidade do estímulo apresentado.

Os resultados indicaram que:

  • Estímulos auditivos aumentaram fortemente a sincronização sensório-motora

  • Estímulos audiovisuais também ampliaram esse efeito

  • Estímulos apenas visuais não produziram o mesmo nível de acoplamento neural

Isso sugere que o sistema motor humano está profundamente sintonizado com estruturas temporais auditivas, especialmente em situações que envolvem movimentos rítmicos do corpo, como caminhar.

Do ponto de vista neurofisiológico, esses achados reforçam a ideia de que o som funciona como um andaime temporal para a coordenação motora, ajudando o cérebro a prever e organizar o ritmo das ações corporais.


Leitura pela Neurociência Decolonial

Sob a lente da Neurociência Decolonial, esse estudo ajuda a recolocar o corpo no centro da cognição. Durante muito tempo, modelos cognitivos influenciados por tradições WEIRD privilegiaram processos visuais e representacionais, como se a percepção do mundo fosse predominantemente visual e abstrata.

Entretanto, muitas culturas humanas — especialmente tradições indígenas e comunidades de forte expressão corporal — sempre reconheceram que o ritmo, o som e o movimento coletivo são centrais para a organização da experiência humana.

Nesse sentido, o estudo de Matamala-Gomez e colegas confirma algo que diferentes culturas já praticam há milênios: o som organiza o corpo no espaço e no tempo.

A partir da perspectiva da Mente Damasiana, essa integração entre percepção auditiva e movimento reflete a constante reorganização entre interocepção, propriocepção e ação no mundo. Caminhar em ritmo com estímulos sonoros não é apenas uma resposta motora; é uma reconfiguração dinâmica do estado corporal.


APUS e o Corpo-Território

O avatar conceitual mais adequado para interpretar esse estudo é APUS, que representa a ideia de corpo-território e propriocepção estendida.

Caminhar em sincronia com estímulos sonoros revela que o corpo não se move isoladamente. Ele se ajusta continuamente ao ambiente sensorial. O som funciona como uma extensão do território corporal, permitindo que o cérebro organize seus movimentos em relação ao espaço e ao tempo.

Sob essa perspectiva, o cérebro não apenas reage ao mundo — ele se acopla ritmicamente ao ambiente.


Conexão com Eus Tensionais e Zonas 1, 2 e 3

Esse estudo também pode ser interpretado dentro do conceito de Eus Tensionais, que descreve os estados funcionais que o organismo sustenta para agir no mundo.

Durante uma tarefa de caminhada rítmica:

Zona 1
O indivíduo executa a tarefa de forma funcional, mantendo o ritmo e a coordenação.

Zona 2
Quando há sincronia sonora eficiente, pode surgir um estado de fruição corporal, no qual movimento e percepção se integram de forma fluida.

Zona 3
Quando o corpo perde essa capacidade de sincronização — seja por excesso de estímulos, rigidez cognitiva ou desregulação fisiológica — o movimento pode se tornar fragmentado e menos adaptativo.

O estudo mostra que o som pode funcionar como um facilitador de transição para estados mais integrados de coordenação corporal, próximos do que se observa na Zona 2.


DREX Cidadão e pertencimento coletivo

A relação entre ritmo, corpo e movimento também possui implicações sociais. Em muitas culturas, ritmo e música são mecanismos de coordenação coletiva, presentes em rituais, danças, caminhadas comunitárias e práticas de cooperação.

Dentro da proposta do DREX Cidadão, a ideia de pertencimento social pode ser compreendida de forma análoga ao funcionamento de um organismo. Assim como células precisam de energia para operar de maneira estável, sociedades precisam de condições mínimas de segurança metabólica para permitir estados coletivos mais criativos e cooperativos.

Quando o corpo social possui estabilidade, torna-se mais provável que surjam formas coletivas de coordenação, criatividade e fruição, semelhantes à sincronia observada em sistemas sensório-motores bem regulados.


Novas perguntas para a BrainLatam

  1. A sincronização sensório-motora aumenta quando a tarefa envolve movimento coletivo, e não apenas individual?

  2. Estados fisiológicos regulados, medidos por HRV ou respiração, influenciam a capacidade de sincronização com estímulos auditivos?

  3. O uso de fNIRS ou EEG hyperscanning poderia revelar sincronização neural entre indivíduos que caminham juntos?

  4. Crianças pequenas apresentam maior sensibilidade à sincronização auditiva durante o movimento corporal?

  5. O ritmo compartilhado pode facilitar estados de Zona 2 coletiva, caracterizados por cooperação e fluidez comportamental?


Possíveis desenhos experimentais

Uma abordagem promissora seria combinar EEG, fNIRS, HRV e sensores de movimento em tarefas de caminhada rítmica sob diferentes condições sensoriais.

Outra possibilidade seria realizar experimentos de hyperscanning, analisando como dois ou mais participantes sincronizam seus movimentos quando expostos a estímulos sonoros compartilhados.

Uma linha particularmente interessante para BrainLatam seria investigar sincronia sensório-motora em contextos musicais ou rituais coletivos, onde o som atua como organizador do comportamento social.


Conclusão BrainLatam

O estudo de Matamala-Gomez e colegas mostra algo fundamental: o cérebro humano parece profundamente afinado com o ritmo do som quando organiza o movimento do corpo.

Esse resultado reforça a ideia de que cognição não é apenas processamento abstrato de informação. Ela emerge de corpos que se movem, escutam e se sincronizam com o ambiente.

Dentro de uma perspectiva de Neurociência Decolonial, isso nos lembra que compreender a mente humana exige observar não apenas o cérebro isolado, mas também o corpo em movimento dentro de um território sensorial e social compartilhado.


Referência

Matamala-Gomez, M., Vilà-Balló, A., Cucurell, D., Tajadura-Jiménez, A., & Rodriguez-Fornells, A. (2026). Sensorimotor frequency tagging is enhanced by auditory and audiovisual, but not visual, inputs during a bodily walking task. Psychophysiology, 63(2).
https://doi.org/10.1111/psyp.70225

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Jackson Cionek

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