Jackson Cionek
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Produzir mais até quando? Quando o excesso começa a produzir menos futuro - Eleições 2026 Presidente

Produzir mais até quando? Quando o excesso começa a produzir menos futuro - Eleições 2026 Presidente

Indústria, agro, mineração, energia e uma pergunta BrainLatam: podemos produzir mais valor retirando menos do território?

Talvez tenhamos aprendido uma associação cedo demais.

Produzir mais é crescer.

Crescer é desenvolver.

Desenvolver é viver melhor.

Durante muito tempo, essas três ideias quase caminharam juntas.

Mais toneladas.

Mais barris.

Mais minério.

Mais hectares produtivos.

Mais exportações.

Mais PIB.

Mas podemos olhar novamente?

Imagine dois países.

Um retira cem toneladas de seu território e exporta matéria-prima.

Outro retira vinte, transforma, pesquisa, patenteia, industrializa e vende tecnologia.

Os dois podem gerar a mesma renda.

Mas apenas um precisou movimentar cinco vezes mais território.

Então aparece a pergunta que orienta este Blog 9:

produzir mais até quando?

Não queremos construir uma visão antiprodução.

Precisamos produzir alimentos.

Energia.

Medicamentos.

Casas.

Tecnologia.

Infraestrutura.

O problema talvez apareça quando produzir deixa de responder a uma necessidade e passa a precisar crescer simplesmente porque o próprio sistema depende de produzir mais no ano seguinte.

É aquilo que chamamos de Produção de Excesso.

E se o problema não for produzir, mas precisar produzir cada vez mais?

Uma pesquisa particularmente importante para esta discussão foi publicada em 2026.

Os equatorianos Fander Falconí, Rafael Burbano, Pedro Cango e Ruthy Intriago analisaram a extração material da América Latina e do Caribe entre 1970 e 2023.

O resultado merece nossa atenção.

O crescimento do PIB regional continuou associado ao aumento da extração de materiais. Os autores encontraram apenas uma desmaterialização relativa fraca: conseguimos, em algumas situações, produzir mais valor por unidade de material, mas isso não foi suficiente para produzir uma redução absoluta da pressão material. O próprio crescimento continua empurrando a extração para cima. (ScienceDirect)

Talvez este seja exatamente o ponto.

Eficiência não resolve tudo se cada ganho de eficiência for acompanhado por uma expansão ainda maior da produção.

A região continua ocupando uma posição histórica conhecida: exportamos grandes quantidades de natureza e frequentemente importamos produtos com muito mais conhecimento e valor incorporado.

A CEPAL estima que atividades baseadas em recursos naturais respondem por cerca de metade das exportações latino-americanas e caribenhas, embora representem parcela muito menor do valor agregado regional. (CEPAL)

É aqui que surge nossa proposta:

Mais valor agregado. Menos produção de excessos.

O território não é um depósito esperando ser esvaziado

Talvez uma Neurociência Decolonial nos ajude a perceber algo que os indicadores econômicos tradicionais escondem.

Quando dizemos que determinada região “produziu” milhões de toneladas, normalmente olhamos para aquilo que saiu.

Mas o Corpo-Território também vive aquilo que ficou.

Mudança de temperatura.

Água.

Poeira.

Mercúrio.

Ruído.

Mudança na paisagem.

Emprego.

Estradas.

Renda.

Deslocamentos.

Memórias.

Possibilidades futuras.

Márcia Tait, Alcides Peron e Marcela Suárez retomam o conceito latino-americano de corpo-território justamente para tornar visíveis relações de poder que atravessam simultaneamente corpos e territórios. (Taylor & Francis Online)

Eduardo Gudynas, do Uruguai, também propõe em 2024 que pensemos territórios não apenas como superfícies cartográficas, mas como construções vividas e sentipensadas pelas comunidades. (Revistas UIS)

Então podemos perguntar juntos:

quando retiramos algo de um território, estamos contabilizando tudo aquilo que ele deixa de poder fazer?

O bioma também produz

Aqui precisamos corrigir outra ideia econômica.

Uma floresta em pé costuma aparecer como se estivesse parada.

Mas ela não está.

Pesquisadores brasileiros demonstram que a conversão de vegetação nativa na Amazônia, Cerrado e Pantanal reduz evapotranspiração e modifica o ciclo de água e energia. Outros estudos recentes mostram que mudanças no Cerrado estão relacionadas à redução de chuvas e que a savanização amazônica, combinada ao aquecimento global, pode aumentar extremos de temperatura e afetar agricultura e geração hidrelétrica em outras regiões brasileiras. (ScienceDirect)

Portanto:

um bioma preservado não é ausência de produção.

Ele produz condições para outras produções continuarem existindo.

Água.

Regulação térmica.

Umidade.

Biodiversidade.

Estabilidade do solo.

Possibilidades futuras.

E aqui chegamos à proposta que chamamos de Petrobras Verde.

Petrobras Verde: não tornar o petróleo verde, mas tornar verde a regra de extração

Precisamos começar com uma ressalva importante.

Petróleo não vira verde porque plantamos árvores depois de queimá-lo.

Preservação florestal não neutraliza termodinamicamente um barril pela simples equivalência entre energia da combustão e evapotranspiração.

A responsabilidade climática precisa considerar principalmente as emissões de gases de efeito estufa ao longo do ciclo de vida, incluindo as emissões provenientes do uso final dos produtos vendidos.

A própria Petrobras reconhece que o uso dos produtos vendidos constitui a categoria mais significativa de suas emissões de Escopo 3.

Nossa proposta é diferente:

O petróleo não vira verde por compensação. O que pode ser verde é a regra segundo a qual decidimos extraí-lo.

A Petrobras alcançou produção total própria de óleo e gás de aproximadamente 3,34 milhões de barris de óleo equivalente por dia no segundo trimestre de 2026. (Agência)

Mas e se deixássemos de perguntar apenas:

quanto conseguimos produzir?

E começássemos por:

quanto o Brasil realmente precisa?

Primeiro suficiência. Depois excedente.

A BrainLatam propõe uma Faixa Nacional de Suficiência Energética.

Ela precisaria ser calculada tecnicamente a cada ano considerando consumo interno, capacidade de refino, segurança energética, reservas estratégicas, diferentes tipos de petróleo e ritmo real da transição energética.

Não significa isolamento comercial.

Significa estabelecer uma ordem.

Primeiro, aquilo que o país necessita.

Depois, o que pretende retirar para abastecer outros territórios.

A partir dessa faixa, cada barril adicional destinado predominantemente à exportação entraria em um Regime de Produção de Excesso.

E receberia um novo valor:

Barril Bioma

Imagine, apenas como desenho inicial, que o petróleo valha US$ 70.

Para a produção excedente exportável, poderíamos estabelecer:

US$ 70 pelo recurso energético

US$ 70 de Renda Bioma

=

US$ 140 como valor soberano mínimo daquele barril excedente.

O mecanismo jurídico poderia assumir a forma de royalty ecológico, tributação de exportação ou contribuição para um fundo soberano dos biomas.

O importante não é o instrumento neste momento.

É o princípio:

quanto mais nos afastamos daquilo que precisamos e entramos na produção de excesso, maior deve ser o valor exigido para retirar um recurso finito do território.

E se o mercado internacional não quiser pagar?

O petróleo permanece no subsolo.

Talvez riqueza também seja aquilo que conseguimos não vender barato.

Mas para onde iria a Renda Bioma?

Não simplesmente para uma conta chamada “compensação ambiental”.

Ela precisaria financiar integridade ecológica mensurável.

Preservação de vegetação nativa madura.

Restauração de áreas degradadas.

Água.

Biodiversidade.

Conectividade ecológica.

Proteção territorial de povos originários e comunidades tradicionais.

Ciência.

Monitoramento climático.

Redução de emissões.

E parte dessa renda poderia alimentar aquilo que chamamos de Rendimento Bioma, integrado futuramente ao Drex Cidadão e ao reconhecimento de cada Corpo-Território como participante da riqueza ecológica nacional.

Assim, manter a floresta em pé deixa de significar economicamente:

“não produzir”.

Passa a significar:

preservar a infraestrutura ecológica que permite ao país continuar existindo e produzindo.

E isso não vale apenas para o petróleo

Pense nas terras raras.

O Brasil poderia simplesmente aumentar a mineração, exportar minério e comemorar o crescimento.

Ou poderia retirar menos e construir aqui:

refino,

ímãs permanentes,

motores,

baterias,

semicondutores,

equipamentos médicos,

tecnologia aeroespacial.

Talvez seja aí que Cury e Renan Santos toquem num ponto especialmente relevante para nossa proposta.

O plano de Augusto Cury afirma explicitamente que o Brasil deveria deixar de ser predominantemente fornecedor de matérias-primas e ampliar processamento, industrialização e bens de alto valor agregado em minerais estratégicos.

Renan Santos apresenta diagnóstico semelhante para terras raras: critica a exportação bruta e propõe capacidade nacional de separação e refino. Seu programa também defende Angra 3, hidrogênio verde e pesquisa em fusão nuclear.

Podemos concordar ou não com a escolha tecnológica.

Mas a pergunta correta apareceu:

por que vender toneladas daquilo que poderia ser transformado aqui em gramas de alto valor tecnológico?

Quando a transição verde repete o velho colonialismo

Aqui a América Latina precisa ter cuidado.

A socióloga argentina Maristella Svampa vem alertando que uma transição energética pode continuar colonial quando substitui petróleo por lítio, cobre ou terras raras, mas mantém intacta a divisão internacional entre territórios que extraem matéria e territórios que concentram tecnologia. Seus trabalhos recentes discutem justamente o risco do colonialismo energético e do extrativismo associado à transição verde. (Conicet)

Miriam Lang, pesquisadora da Universidad Andina Simón Bolívar, no Equador, argumenta em 2024 que o imperativo do crescimento também pode produzir danos no Sul Global e que estratégias de “crescimento verde” podem aprofundar fronteiras extrativas se as relações coloniais e comerciais permanecerem intocadas. (Cambridge University Press)

Talvez trocar a cor da tecnologia não seja suficiente.

Uma transição energética que exige que a América Latina extraia cada vez mais para que outros países consumam cada vez mais continua sendo uma economia de excesso.

E o que os candidatos a Presidente propõem?

É interessante observar que quase todos reconhecem alguma parte do problema.

Lula propõe liderar uma transição para uma economia de baixo carbono, ampliar renováveis, bioenergia e sustentabilidade produtiva. Mas seu plano simultaneamente comemora a retomada e os recordes de produção de petróleo e gás.

Talvez essa seja uma das tensões centrais de sua proposta:

como liderar a transição e, ao mesmo tempo, ampliar a fronteira fóssil?

Flávio Bolsonaro combina uma agenda favorável à expansão econômica com a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2029 e propõe monitoramento ambiental com IA, satélites e integração de bases públicas. (UOL Notícias)

Romeu Zema apresenta a natureza como ativo econômico, propõe combate ao desmatamento ilegal e à mineração ilegal e inclui até o aproveitamento econômico de rejeitos existentes. Há aqui uma pergunta interessante para nossa lógica: podemos extrair valor daquilo que já retiramos antes de abrir outra frente de mineração?

Ronaldo Caiado aposta na modernização do agro, seguro rural permanente, monitoramento climático, rastreabilidade e transformação da sustentabilidade em vantagem comercial. (Tribunal Superior Eleitoral)

Clariana Barão apresenta uma agenda mais geral de segurança energética, infraestrutura e exportações de maior valor agregado, sem desenvolver no plano consultado uma política material ou extrativa tão específica quanto outras candidaturas. (Polyapoio)

Na esquerda, encontramos respostas diferentes.

Edmilson Costa propõe reduzir o ritmo de exploração do petróleo, utilizar sua renda para financiar energia limpa, combater mineração ilegal e ampliar proteção dos biomas.

Hertz Dias relaciona dependência econômica à exportação de recursos, propõe controle estatal de setores como petróleo e mineração, agroecologia e se posiciona contra a exploração de petróleo na Margem Equatorial. (Tribunal Superior Eleitoral)

Rui Costa Pimenta propõe Petrobras integralmente estatal, nacionalização das reservas minerais e utilização da renda do petróleo para necessidades internas. Seu programa, porém, enfatiza sobretudo propriedade e soberania, e menos a existência de um limite ecológico para a produção. (Tribunal Superior Eleitoral)

Samara Martins propõe defender o meio ambiente amazônico, impedir exploração estrangeira de minérios e revogar o que seu programa chama de entrega das terras raras.

Wilson Grassi propõe utilizar a matriz renovável como vantagem industrial, combater desmatamento ilegal por rastreabilidade e abrir o debate sobre mineração em terras indígenas com consulta e participação econômica das comunidades.

Para Pablo Marçal, o repositório de propostas do TSE consultado para este texto ainda não oferece documento oficial que permita atribuir uma política material e ambiental equivalente com segurança. (Tribunal Superior Eleitoral)

Talvez desenvolvimento seja precisar retirar menos

Eduardo Gudynas e Fernando García-Quero argumentam em 2025 que as transições pensadas a partir do Sul precisam ir além de simples substituições tecnológicas e enfrentar também periferia, desigualdade e dependência. (ResearchGate)

Talvez possamos levar essa pergunta diretamente às Eleições 2026 Presidente.

Não precisamos escolher entre:

produzir

ou

não produzir.

Podemos escolher entre formas diferentes de produzir.

Uma economia pode retirar cada vez mais matéria para conseguir crescer.

Ou pode aumentar conhecimento, tecnologia, durabilidade, circularidade e valor agregado por unidade retirada.

Na Consciência 5D, também podemos perguntar por que “mais” ganhou tanto Qualia de progresso.

Mais petróleo parece potência.

Mais soja parece sucesso.

Mais minério parece desenvolvimento.

Talvez nossa maturidade coletiva comece quando conseguimos observar esse brilho e perguntar:

mais para quê?

Mais para quem?

Durante quanto tempo?

E o que esse “mais” está retirando das possibilidades futuras do Corpo-Território?

É por isso que a proposta BrainLatam não é antiprodução.

Talvez seja exatamente o contrário.

Queremos continuar produzindo.

Mas queremos que nossos filhos também possam.

Produzir melhor talvez signifique aprender a produzir mais futuro com menos excesso.

Referências

FALCONÍ, Fander; BURBANO, Rafael; CANGO, Pedro; INTRIAGO, Ruthy. Extraction and dematerialization in Latin America, 1970–2023. Ecological Economics, v. 244, 2026. DOI 10.1016/j.ecolecon.2026.108947. (ScienceDirect)

LANG, Miriam. Degrowth, global asymmetries, and ecosocial justice: Decolonial perspectives from Latin America. Review of International Studies, v. 50, 2024. DOI 10.1017/S0260210524000147. (Cambridge University Press)

GUDYNAS, Eduardo. Sentipensando territorios: una revisión del concepto, sus expresiones y urgencias en América Latina. Cambios y Permanencias, v. 15, n. 2, 2024. DOI 10.18273/cyp.v15n2-202406. (Revistas UIS)

GUDYNAS, Eduardo; GARCÍA-QUERO, Fernando. Repensando las transiciones desde el Sur: un diálogo con Raúl Prebisch sobre periferia, desigualdad y capitalismo. Desenvolvimento e Meio Ambiente, v. 66, 2025. DOI 10.5380/dma.v66i.99113. (ResearchGate)

SVAMPA, Maristella. Dilemas de la transición ecosocial desde América Latina; La transición energética vista desde el Sur; Thinking about Ecosocial Transition: Lithium and Energy Colonialism. Trabalhos publicados entre 2023 e 2024. (Conicet)

TAIT, Márcia M.; PERON, Alcides Eduardo dos Reis; SUÁREZ, Marcela. Terrestrial politics and body-territory: two concepts to make sense of digital colonialism in Latin America. Tapuya, 2022. DOI 10.1080/25729861.2022.2090485. (Taylor & Francis Online)

HOFMANN, G. S. et al. Changes in atmospheric circulation and evapotranspiration are reducing rainfall in the Brazilian Cerrado. Scientific Reports, 2023. (Nature)

BOTTINO, Marcus Jorge et al. Amazon savannization and climate change are projected to increase dry season length and temperature extremes over Brazil. Scientific Reports, 2024. (DOI)

CEPAL. Natural Resources Outlook in Latin America and the Caribbean 2023. Publicado em 2024. (CEPAL)

PETROBRAS. Relatório de Sustentabilidade 2025 e resultados operacionais do segundo trimestre de 2026. (Petrobras)

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Propostas de Governo — Eleições 2026. Documentos oficiais utilizados para a comparação das candidaturas. (Tribunal Superior Eleitoral)









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Jackson Cionek

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