Jackson Cionek
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OHBM 2026: Language Across Brain Systems and the Lifespan — linguagem mora só nas palavras?

OHBM 2026: Language Across Brain Systems and the Lifespan — linguagem mora só nas palavras?

A OHBM 2026 traz um eixo muito fértil para quem quer pensar linguagem sem cair num modelo estreito demais: Language Across Brain Systems and the Lifespan. Dentro dessa sessão aparecem tópicos como Decoding Language Identity from Whole-Brain fMRI During Bilingual Picture Naming, Neural substrates of orthographic coding in skilled deaf readers, Maturation of the arcuate fasciculus in relation to language development around 1 year of age e Language and attention crowding revealed through a multi-scale perspective on brain lateralization. Só essa combinação já mostra uma mudança importante: linguagem não está sendo tratada apenas como fala padrão, cérebro monolíngue e leitura linear. A própria programação abre espaço para bilinguismo, desenvolvimento, leitura em pessoas surdas e diferentes formas de organização lateralizada da linguagem.

Isso tem muito valor para uma leitura de Neurociência Decolonial. Durante muito tempo, a ciência da linguagem correu o risco de tomar como norma um sujeito muito específico: ouvinte, monolíngue, alfabetizado dentro de um padrão dominante e inserido em contextos relativamente homogêneos. Mas, na vida real, linguagem nunca foi só isso. Muita gente cresce entre duas línguas, entre fala e gesto, entre oralidade e escrita, entre códigos familiares e códigos escolares, entre escuta, leitura labial, sinalização, sotaques e formas distintas de nomear o mundo.

Na linguagem Brain Bee, a pergunta pode ficar assim:

Quem cresce entre duas línguas, gestos ou modos diferentes de comunicar organiza o cérebro de outro jeito?

Essa pergunta é forte porque aproxima a neurociência da vida concreta. Adolescente entende isso rápido. Todo mundo conhece alguém que muda de linguagem conforme o contexto, mistura idiomas, usa mais gesto, lê o ambiente antes de falar, ou sente que a escola cobra uma forma de expressão diferente da que circula em casa. O ponto da OHBM 2026 é que isso começa a aparecer com mais clareza na própria agenda científica.

Aqui, os avatares que mais ajudam são Olmeca e APUS.

Olmeca entra porque linguagem nunca é só estrutura neural. Linguagem também é cultura, território, história de vida, hierarquia simbólica, escola, classe, memória coletiva e forma de pertencimento. Quando a OHBM 2026 traz temas como bilingual picture naming e skilled deaf readers, ela abre espaço para pensar que diferentes trajetórias linguísticas não são desvio de uma norma única, mas modos legítimos de organização entre cérebro, cultura e experiência.

APUS entra porque linguagem também é corpo no espaço. É ritmo, pausa, gesto, olhar, distância, timing, postura e ambiente. Nem toda linguagem mora primeiro na palavra. Muitas vezes ela aparece no corpo antes de virar frase. Isso é ainda mais evidente quando a gente pensa em desenvolvimento, comunicação multimodal e leitura em contextos diferentes.

A crítica decolonial aqui não precisa ser agressiva. Ela pode ser simples: muita teoria da linguagem ainda fica cristalizada quando trata o monolinguismo como padrão implícito e a variação como exceção. Isso reduz a riqueza do fenômeno. A própria sessão da OHBM 2026 sugere o contrário: há desenvolvimento, há bilinguismo, há leitura em pessoas surdas, há lateralização complexa, e há múltiplas formas de codificação linguística.

Uma pergunta melhor, então, seria esta:

O que muda na atenção, na memória e no corpo quando a linguagem cresce entre mais de um código, mais de um canal ou mais de um território cultural?

Essa é uma pergunta boa para a OHBM 2026, boa para a Brain Bee e muito importante para a América Latina. Porque aqui a linguagem nunca foi uma coisa só. Ela passa por fronteiras, sotaques, línguas indígenas, espanhol, português, línguas de sinais, migração, oralidade e diferenças regionais muito fortes.

Uma proposta Brain Bee de experimento com EEG + NIRS

A proposta pode ser simples e boa para formação: comparar tarefas curtas de nomeação e leitura em português e espanhol, ou de fala e gesto, ou ainda de escuta e leitura, dependendo do grupo. Com EEG, a gente pode observar componentes como N400 e P600, ligados a integração de sentido e reanálise. Com NIRS, a gente pode acompanhar a ativação em regiões frontotemporais durante essas mudanças de código e contexto.

O foco não seria descobrir “qual grupo é melhor”, mas perceber como diferentes histórias linguísticas organizam atenção, sentido e esforço cerebral de maneiras distintas. A hipótese central é direta: linguagem não mora só nas palavras; ela também mora nas trajetórias culturais e corporais que tornam a comunicação possível.

Onde a OHBM 2026 já aponta nessa direção

Esse blog nasce diretamente da programação oficial. A sessão Language Across Brain Systems and the Lifespan está prevista como sessão oral no congresso, e seus tópicos mostram que linguagem já está sendo tratada em conexão com desenvolvimento, bilinguismo, leitura em pessoas surdas e organização cerebral distribuída. Isso ajuda a deslocar a pergunta.

Em vez de perguntar apenas “onde está a linguagem no cérebro?”, a discussão pode ficar mais rica: como diferentes formas de viver a linguagem reorganizam atenção, lateralização, leitura e produção de sentido ao longo da vida?

Por que isso importa para a América Latina

Na nossa região, pensar linguagem de forma estreita seria um erro enorme. A América Latina é feita de convivência entre línguas, sotaques, fronteiras simbólicas, desigualdades escolares e formas diversas de nomear o mundo. Por isso, uma neurociência feita daqui ganha muito quando deixa de perguntar apenas “qual é o circuito da linguagem?” e passa a perguntar também “que mundo linguístico esse cérebro teve que aprender a habitar?”.

Esse ponto é especialmente importante para jovens de 14 a 17 anos. Eles já percebem que falar bem não significa sempre falar do mesmo jeito, e que comunicar não é apenas repetir uma norma. Se a Brain Bee Latam quiser inspirar perguntas científicas novas, linguagem é um dos melhores terrenos para isso.

A beleza desse tema da OHBM 2026 está justamente aí: ele já deixa espaço para sair do cérebro monolíngue padrão. O nosso papel é ampliar essa abertura.

Em vez de perguntar apenas como o cérebro processa palavras, a gente pode perguntar:

O que muda quando uma pessoa cresce entre duas línguas?
O que o gesto faz que a palavra sozinha não faz?
Como leitura, escuta, sinalização e cultura reorganizam o cérebro ao longo da vida?

Quando a neurociência começa a medir isso, ela deixa de ser apenas uma ciência da linguagem padronizada e começa a virar também uma ciência da linguagem vivida.

Referências usadas neste blog

  • OHBM 2026 — sessão oral “Language Across Brain Systems and the Lifespan”, incluindo Decoding Language Identity from Whole-Brain fMRI During Bilingual Picture Naming, Neural substrates of orthographic coding in skilled deaf readers, Maturation of the arcuate fasciculus in relation to language development around 1 year of age e Language and attention crowding revealed through a multi-scale perspective on brain lateralization.

  • OHBM 2026 Schedule at a Glance — confirmação de que Language Across Brain Systems and the Lifespan está programada como sessão oral no congresso.





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Jackson Cionek

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