Jackson Cionek
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O cérebro durante a mudança - os 150 segundos de Hutcheon

O cérebro durante a mudança - os 150 segundos de Hutcheon

Há mudanças que reconhecemos apenas depois que terminaram. Eu estava acordado e, em algum momento, adormeci. Eu estava correndo e depois já estava recuperando o fôlego. Entrei em um lugar desconhecido e, alguns minutos mais tarde, meu corpo parecia ter decidido se aquele ambiente era seguro.

Quase sempre damos nomes aos estados: vigília, sono, esforço, repouso, medo, segurança. Mas o que acontece no intervalo em que ainda não deixei completamente um estado e ainda não me estabilizei no outro?

Essa é a pergunta que abre o W40/2026: o que uma transição revela que o antes e o depois não conseguem mostrar?

Um estudo de Evan Hutcheon e colaboradores, publicado em 2023 na Human Brain Mapping, oferece uma entrada inesperadamente precisa para essa pergunta. Os pesquisadores não estavam estudando “Metanoia”, transcendência ou transformação existencial. Investigavam hipóxia: queriam compreender como a saturação periférica de oxigênio, a SpO₂, se relacionava com a atividade cerebral registrada por EEG em condições de hipóxia normobárica e hipobárica. Foram analisadas potência espectral absoluta e relativa e entropia multiescala enquanto a SpO₂ era registrada simultaneamente.

O detalhe decisivo apareceu no tempo.

Na hipóxia normobárica, os participantes começaram a respirar a mistura com menos oxigênio no início da gravação. Portanto, durante os primeiros 150 segundos, a SpO₂ ainda estava caindo. Na condição hipobárica, porém, eles já haviam passado pela despressurização antes do registro e começaram o período analisado já dessaturados.

Isso permitiu aos pesquisadores perceber algo que uma comparação simples entre “normal” e “hipóxia” poderia esconder:

o cérebro durante a queda da SpO₂ não apresentava exatamente o mesmo padrão encontrado depois que a oxigenação já havia se estabilizado.

Nos primeiros 150 segundos da condição normobárica, a relação entre EEG e SpO₂ mostrou um padrão robusto. Correlações envolvendo potência alfa e baixo beta, além de alterações de entropia multiescala, distinguiam essa fase de dessaturação das demais condições. Os autores concluíram que era justamente a dessaturação ativa dos primeiros 150 segundos que conduzia grande parte das diferenças encontradas quando os cinco minutos eram analisados em conjunto.

Quando analisaram somente os últimos 150 segundos, com a SpO₂ relativamente estabilizada, as diferenças entre as condições deixaram de ser significativas para potência absoluta, potência relativa e MSE.

Ao final, os próprios autores formulam a observação que interessa especialmente ao W40/2026: o cérebro respondeu de maneira diferente à SpO₂ em mudança e à hipóxia em estado estável.

É importante não avançarmos além da evidência.

Hutcheon não demonstrou uma lei universal das transições. A dessaturação hipobárica não foi registrada enquanto acontecia; portanto, o estudo não permite afirmar que toda dessaturação produzirá a mesma assinatura cerebral. Muito menos podemos transformar 150 segundos em uma medida universal da transformação humana.

Os 150 segundos pertencem àquele experimento.

Mas a pergunta que eles abrem pode ser maior.

Se eu medir apenas A e B, o que acontece com A → B?

Em 2025, Matthew Hall e colaboradores estudaram uma hipóxia progressiva. O oxigênio inspirado foi reduzido em quatro níveis sucessivos, enquanto eram acompanhados EEG, fisiologia, sintomas e desempenho cognitivo. Os pesquisadores encontraram mudanças na dinâmica temporal dos bursts de EEG relacionadas à progressão do estado hipóxico. (PubMed)

Não significa que Hall tenha simplesmente replicado Hutcheon. Os desenhos são diferentes.

O que nos interessa é outra coisa: quando o fenômeno é preservado como processo, e não apenas como fotografia inicial e final, aparecem informações sobre a trajetória.

Uma terceira peça vem de algo que fazemos todos os dias: adormecer.

Em 2025, Junheng Li e colaboradores analisaram dados de EEG de mais de mil participantes e representaram a passagem da vigília para o sono como uma trajetória em um espaço de características cerebrais. Encontraram uma dinâmica compatível com bifurcação, identificaram um tipping point e observaram critical slowing down antes da transição. (Nature)

Não é a mesma fisiologia da hipóxia.

Não devemos misturá-las.

Mas existe uma semelhança metodológica poderosa: em vez de perguntar somente “vigília ou sono?”, podemos perguntar:

como o sistema está se aproximando da mudança?

Talvez eu possa levar essa pergunta para minha própria experiência sem transformar minha experiência em evidência científica.

Quando meu estado muda, o que muda primeiro?

A respiração?

A atenção?

A frequência cardíaca?

Minha percepção do ambiente?

A maneira como percebo meu próprio corpo?

Minha atividade cerebral?

Ou a interpretação que dou ao que estou sentindo?

Essas dimensões não precisam mudar juntas nem obedecer ao mesmo relógio. É justamente aí que começa uma das perguntas que acompanharemos ao longo do W40/2026: qual variável anuncia a transição, qual acompanha a transição e qual só muda depois que um novo estado já começou a se formar?

Os Andes também nos ensinam que estado carrega história

A América Latina oferece um território particularmente importante para pensar oxigênio, cérebro, ambiente e tempo.

Em 2024, Carlos Coronel-Oliveros, Vicente Medel e colaboradores, com forte participação de instituições chilenas, compararam EEG de pessoas ao nível do mar e durante exposição aguda a aproximadamente 4.000 metros de altitude. Encontraram mudanças em potência espectral, atividade aperiódica e organização da conectividade funcional associadas à hipóxia de altitude. (MIT Press Direct)

Esse experimento não procurava localizar o instante da transição como Hutcheon. Mas ele amplia nossa paisagem: oxigênio, território e organização cerebral podem ser estudados conjuntamente.

Nos Andes peruanos, a escala temporal muda novamente.

Francisco Villafuerte, Daniela Bermudez, Fabiola León-Velarde e colaboradores discutiram, em 2022, respostas adaptativas e maladaptativas à hipóxia crônica em populações que vivem em altitude. Um aumento na capacidade de transporte de oxigênio pode participar da adaptação; quando a eritrocitose se torna excessiva, entretanto, pode integrar quadros de doença crônica da montanha. (Physiology Journals)

Em La Rinconada, no Peru, situada acima de 5.000 metros, outro estudo publicado em 2024 encontrou que aspectos da homeostase cerebral permaneceram globalmente preservados apesar da hipoxemia intensa observada em habitantes de longa permanência. (Nature)

Isso nos impede de cometer um erro sedutor:

imaginar que “hipóxia” seja uma única coisa.

Cento e cinquenta segundos de dessaturação, algumas horas em altitude, semanas de aclimatação e muitos anos vivendo nos Andes são histórias corporais diferentes.

O estímulo pode compartilhar uma dimensão — a disponibilidade de oxigênio —, mas o Corpo-Território chega a ele carregando tempo, ambiente, aprendizagem, adaptação e história.

Estado não é apenas lugar.

Estado também carrega trajetória.

Jiwasa: a pergunta já não pertence apenas a quem escreveu

É aqui que Jiwasa começa a participar do W40/2026.

No campo pronominal aimara, jiwasa/jiwasanaka está associado ao “nós” inclusivo: aquele que inclui quem fala e aquele a quem se fala. Uma análise peruana contemporânea sobre comunicação intercultural explicita essa diferença entre formas inclusivas e exclusivas e mostra como ela permanece viva em práticas comunicacionais aimaras. (SciELO Peru)

Não estamos dizendo que Jiwasa seja um conceito da neurociência.

A extensão que fazemos no W40/2026 é outra.

Eu continuo sendo eu. Você continua sendo você. Mas a pergunta pode existir entre nós.

Eu observo Hutcheon e encontro um resultado experimental. Você pode reconhecer — ou não — uma passagem semelhante na própria experiência. O dado não se torna verdadeiro porque nós o sentimos. E aquilo que sentimos não deixa de existir apenas porque não aparece naquele EEG.

São planos diferentes.

Minha experiência pode gerar uma pergunta.
A evidência pode corrigir minha interpretação.
Sua experiência pode produzir outra pergunta.
E nenhum de nós precisa possuir sozinho a conclusão.

Esse é um sentido mais profundo de Jiwasa para esta série: não dissolver o eu no coletivo, mas permitir que o conhecimento aconteça numa relação em que quem escreve e quem lê permanecem presentes.

Nem toda transição é transcendência

Essa posição também nos protege de uma palavra tentadora.

Nem toda transição é transcendência.

Uma queda de SpO₂ não é uma experiência espiritual. Adormecer não é Metanoia. Uma bifurcação matemática não explica uma epifania.

Se esses fenômenos puderem conversar, a ponte precisa ser construída e testada — nunca presumida.

Por isso, antes de procurar estados extraordinários, o W40/2026 começa pelo mais simples:

aprender a enxergar o transiente.

Mais adiante falaremos de calor latente, microestados, metastabilidade, homeostase, respiração, estados alterados, crença, transcendência e Metanoia.

Uma revisão recente sobre metastabilidade lembra justamente que o cérebro combina integração relativamente estável com possibilidades de segregação e reorganização — e também alerta contra o uso impreciso da palavra “metastabilidade”. (PubMed)

A pergunta para nós será, então:

como permanecer suficientemente estável para continuar existindo e suficientemente flexível para poder mudar?

Talvez agora eu reconheça por que os 150 segundos de Hutcheon são um bom começo.

Eles não dizem quem somos.

Não dizem para onde devemos mudar.

Não provam transcendência.

Mostram algo mais modesto — e talvez por isso mais importante: se esperarmos apenas o estado final para olhar, podemos perder a dinâmica que tornou aquele estado possível.

Hutcheon nos deixou uma janela de 150 segundos.

Eu posso olhar para ela como dado científico. Você pode encontrar nela uma pergunta sobre suas próprias transições. Jiwasa não exige que cheguemos à mesma resposta. Permite que a investigação aconteça entre nós sem apagar as diferenças que cada Corpo-Território traz consigo.

E assim a primeira pergunta do W40/2026 retorna, agora já um pouco nossa:

quantas vezes demos nome apenas ao lugar de onde partimos e ao lugar onde chegamos — e deixamos sem nome justamente o momento em que estávamos nos tornando diferentes?


Referências comentadas

As referências abaixo são todas posteriores a 2021. Os comentários foram construídos para que a sequência das referências, por si só, reconte a ideia central deste blog.

  • Hutcheon, E. A., Vakorin, V. A., Nunes, A., Ribary, U., Ferguson, S., Claydon, V. E., & Doesburg, S. M. (2023). Associations between spontaneous electroencephalogram oscillations and oxygen saturation across normobaric and hypobaric hypoxia. Human Brain Mapping, 44(6), 2345–2364. (Wiley Online Library)
    O que representa neste texto: é o ponto de partida do W40/2026. Mostra que os primeiros 150 segundos de dessaturação ativa apresentaram relações EEG–SpO₂ diferentes daquelas observadas após a estabilização, permitindo perguntar se estar mudando pode conter informação que desaparece quando observamos apenas o estado alcançado.

  • Hall, M. J., Pellizzer, G., McHail, D. G., Blacker, K. J., Francis, D. J., & Ince, N. F. (2025). EEG burst dynamics as an indicator of a progressive hypoxic state. Journal of Neurophysiology, 133(6), 1980–1996. (PubMed)
    O que representa neste texto: acompanha a hipóxia como uma progressão, e não apenas como duas condições separadas. Mostra por que preservar a dimensão temporal pode revelar como o cérebro percorre uma mudança fisiológica.

  • Li, J., Ilina, A., Peach, R., et al. (2025). Falling asleep follows a predictable bifurcation dynamic. Nature Neuroscience, 28, 2515–2525. (Nature)
    O que representa neste texto: demonstra, em uma transição completamente diferente — vigília para sono —, que o caminho entre dois estados pode possuir estrutura mensurável, incluindo bifurcação, tipping point e critical slowing down. A pergunta deixa de ser somente “qual é o estado?” e passa a incluir “como ele está mudando?”.

  • Coronel-Oliveros, C., Medel, V., et al. (2024). Elevating understanding: Linking high-altitude hypoxia to brain aging through EEG functional connectivity and spectral analyses. Network Neuroscience, 8(1), 275–292. (MIT Press Direct)
    O que representa neste texto: leva a discussão ao território andino e à produção científica latino-americana, mostrando que mudanças na disponibilidade de oxigênio em grande altitude se relacionam a alterações mensuráveis em oscilações, atividade aperiódica e conectividade cerebral.

  • Villafuerte, F. C., Simonson, T. S., Bermudez, D., & León-Velarde, F. (2022). High-Altitude Erythrocytosis: Mechanisms of Adaptive and Maladaptive Responses. Physiology, 37(4). (Physiology Journals)
    O que representa neste texto: pesquisadores ligados ao Peru mostram que a exposição prolongada à altitude produz respostas que podem participar tanto de adaptação quanto de maladaptação. A referência introduz uma ideia essencial: o mesmo desafio fisiológico encontra corpos com histórias temporais diferentes.

  • Furian, M., Ulliel-Roche, M., Howe, C. A., et al. (2024). Cerebral homeostasis and orthostatic responses in residents of the highest city in the world. Scientific Reports, 14, 17732. (Nature)
    O que representa neste texto: habitantes andinos de La Rinconada mostram que viver durante anos em hipóxia severa não equivale a atravessar alguns minutos de dessaturação experimental. Ajuda a compreender que homeostase é também história de adaptação.

  • Hancock, F., Rosas, F. E., Luppi, A. I., et al. (2025). Metastability demystified — the foundational past, the pragmatic present and the promising future. Nature Reviews Neuroscience, 26(2), 82–100. (PubMed)
    O que representa neste texto: oferece uma linguagem rigorosa para pensar sistemas cerebrais capazes de combinar relativa estabilidade e possibilidade de reorganização, preparando a próxima pergunta do W40/2026: como um sistema muda sem simplesmente perder sua organização?

  • Escobar, W. (2024). Comunicación intercultural desde los medios de comunicación. Lengua y Sociedad, 23(2). (SciELO Peru)
    O que representa neste texto: situa no contexto peruano contemporâneo a distinção aimara entre formas de “nós”, incluindo o plural inclusivo associado a jiwasa/jiwasanaka. Para o W40/2026, é a base para não reduzir Jiwasa a “cooperação”: quem fala e quem escuta participam do nós sem que suas diferenças precisem desaparecer.





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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States