Jackson Cionek
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Entre dois estados - da transição cerebral à transição institucional

Entre dois estados - da transição cerebral à transição institucional

A plenitude do momento em que A ainda existe e B ainda não chegou

Existe um momento estranho em toda transição.

Ainda estamos em A, mas A já não é vivido exatamente como antes. Sabemos que B pode chegar, mas B ainda não existe plenamente.

Entre os dois há um intervalo.

Talvez passemos boa parte da vida tentando encurtá-lo.

Queremos saber logo o diagnóstico, o resultado da prova, se o relacionamento continuará, quem vencerá a eleição, como ficará a economia, quem ocupará determinado cargo. Queremos transformar o futuro em presente antes que o próprio acontecimento tenha terminado de produzi-lo.

Em setembro de 2026, o Brasil vive exatamente um desses intervalos coletivos. O primeiro turno das Eleições Gerais ocorrerá em 4 de outubro; onde houver segundo turno, será em 25 de outubro. A diplomação dos eleitos tem prazo até 18 de dezembro e a posse presidencial ocorrerá em 5 de janeiro de 2027. (Justiça Eleitoral)

Isso significa que a eleição não é um ponto.

É um percurso.

Pode haver continuidade política ou mudança de administração. Em qualquer caso, existe uma passagem institucional de um ciclo para outro.

Mas este texto não é sobre qual B deveria acontecer.

É sobre uma pergunta anterior:

conseguimos perceber que estamos vivendo A → B enquanto A → B ainda está acontecendo?

O futuro pode roubar o presente

Pego o celular.

Uma pesquisa.

Deslizo.

Uma previsão.

Deslizo.

Um vídeo dizendo que determinada informação “mudará tudo”.

Outro explicando por que o primeiro vídeo está errado.

Uma mensagem no grupo.

Uma fala de candidato.

Um líder religioso interpreta o momento.

Um comentarista interpreta o líder.

Um influenciador interpreta o comentarista.

A próxima publicação já começou antes que eu tenha compreendido o que a anterior produziu em mim.

E talvez o maior risco não seja apenas acreditar em uma notícia falsa.

Talvez seja atravessar a própria transição sem percebê-la.

Na linguagem da BrainLatam, existe uma pergunta sobre o tempo necessário para que percepção, memória, corpo e metacognição participem da construção de uma experiência em primeira pessoa. A BrainLatam tem utilizado aproximadamente 3,1 segundos como janela operacional para pensar esse presente consciente. Isso não deve ser tratado como um cronômetro universal: a ciência descreve integração consciente em múltiplas escalas temporais. Ainda assim, estudos recentes também encontram relevância de uma janela de aproximadamente três segundos para a organização do chamado presente subjetivo. (brainlatam) (PubMed)

A questão, portanto, não é afirmar:

“se outro vídeo chegou antes de 3,1 segundos, eu não tive consciência”.

É algo mais interessante:

quanto do estímulo anterior consegui perceber em mim antes que o próximo começasse a me reorganizar?

O cérebro também tem um “entre”

No Blog 01 começamos com Hutcheon e colaboradores.

Durante os primeiros 150 segundos de hipóxia normobárica, a SpO₂ dos participantes ainda estava diminuindo. As relações entre EEG e SpO₂ observadas durante essa dessaturação diferiam daquelas encontradas após a estabilização.

Quando os últimos 150 segundos foram analisados, com a saturação mais estável, aquelas diferenças entre condições deixaram de ser significativas.

Uma eleição não é hipóxia.

Um Estado não é um cérebro.

Mas Hutcheon nos ofereceu uma pergunta metodológica poderosa:

o que desaparece quando medimos somente A e B e ignoramos A → B?

Agora podemos devolvê-la ao Corpo-Território.

Talvez eu esteja tão ocupado tentando descobrir B que não perceba o estado singular de estar entre.

Calor Latente: quando muito acontece sem aparecer na variável mais óbvia

Na física, durante certas mudanças de fase, energia entra ou sai do sistema enquanto a temperatura permanece temporariamente constante. Essa energia envolvida na mudança de fase é chamada calor latente. (OpenStax)

O W40/2026 usa isso somente como metáfora. Não estamos dizendo que eleições, consciência ou Metanoia possuam calor latente termodinâmico.

A metáfora nos ajuda porque lembra que uma variável aparentemente estável não significa ausência de transformação.

Por fora, talvez meu dia pareça igual.

Eu acordo.

Trabalho.

Como.

Abro o Instagram.

Converso.

Durmo.

Mas meu país está entre configurações possíveis. Minhas expectativas estão mudando. O futuro que imagino muda conforme recebo novas informações. Minha relação com outras pessoas talvez esteja sendo reorganizada.

Pode existir muita “energia” psicológica, social e simbólica circulando enquanto, superficialmente, ainda parecemos estar no mesmo lugar.

Talvez o calor latente da transição seja justamente aquilo que só conseguimos sentir se não corrermos imediatamente para o resultado.

E se o “entre” puder ser fruído?

Ailton Krenak, em Futuro ancestral, questiona tanto o futuro tratado como catástrofe quanto o futuro apresentado como redenção quando ambos nos afastam daquilo que está ao nosso redor. (Companhia das Letras)

Talvez isso seja especialmente importante numa eleição.

Podemos passar semanas imaginando:

“quando ganhar...”

“quando perder...”

“quando mudar...”

“quando continuar...”

E perder o único lugar em que estamos vivos:

agora.

Fruir a transição não significa gostar do cenário político.

Não significa ficar indiferente.

Não significa deixar de votar, participar, argumentar ou defender aquilo em que acreditamos.

Significa permitir que exista consciência do entre.

Eu ainda não sei B.

E, por alguns instantes, talvez eu não precise saber.

Talvez aí exista uma possibilidade de transcendência

Transcendência, neste texto, não significa provar uma realidade sobrenatural.

Estamos falando da experiência fenomenológica de ultrapassar temporariamente a perspectiva habitual do próprio eu.

Pesquisas recentes sobre awe mostram que experiências de assombro ou maravilhamento podem ampliar a perspectiva, diminuir temporariamente a centralidade do self habitual e aumentar a percepção de pertencimento a algo maior. Essas experiências também dependem de cultura e contexto e não são necessariamente agradáveis. (Nature)

Uma eleição não produz isso automaticamente.

Mas pense no momento.

Milhões de primeiras pessoas, desconhecidas umas das outras, participam simultaneamente de um processo cujo resultado nenhuma delas controla individualmente.

Eu sou um voto.

Você é outro.

Milhões de Corpos-Territórios diferentes participam da produção de um resultado coletivo que ainda não existe.

Talvez haja aí uma possibilidade de transcendência cotidiana:

por alguns instantes perceber que participo de algo maior do que eu sem precisar desaparecer dentro desse coletivo.

Isso se aproxima de Jiwasa.

Na extensão BrainLatam, Jiwasa não é massa, obediência ou a eliminação das diferenças individuais. É um nós no qual diferentes primeiras pessoas continuam existindo. (brainlatam)

Eu não preciso votar como você para reconhecer:

nós estamos atravessando este intervalo juntos.

Epifania não é receber uma resposta pronta

Existe ainda outra possibilidade dentro do entre: a epifania.

Na pesquisa sobre insight, a experiência de “Aha!” pode acompanhar uma reorganização súbita da maneira como um problema é representado. Mas a literatura também adverte que a sensação de Aha e uma reestruturação correta não são a mesma coisa; a experiência subjetiva de clareza não garante, sozinha, a verdade de uma conclusão. (Nature)

Isso é particularmente relevante durante uma eleição.

Posso sentir:

“Agora tudo faz sentido!”

Mas o sentir da clareza continua precisando encontrar os fatos.

A epifania mais importante desse período talvez nem seja descobrir “quem está certo”.

Pode ser perceber:

eu estava tentando obrigar o futuro a chegar antes da hora.

E então algo muda.

Não necessariamente meu voto.

Talvez mude minha relação com a incerteza.

É aqui que Metanoia pode começar

Pesquisas contemporâneas sobre experiências transformadoras descrevem mudanças capazes de reorganizar visão de mundo, percepção do próprio eu, relação com os outros e formas posteriores de agir. Não há uma definição única ou um biomarcador universal desse processo. (Frontiers)

No W40/2026, chamamos Metanoia a possibilidade de uma transformação de perspectiva que não se reduz à simples troca de opinião.

Metanoia eleitoral, portanto, não significa trocar de candidato.

Pode acontecer quando percebo que:

minha expectativa não é o resultado;

meu medo não é uma previsão;

meu grupo não possui toda a realidade;

meu sentir é verdadeiro como experiência, mas não prova sozinho minha interpretação;

e eu consigo permanecer alguns instantes diante do ainda não.

É uma mudança muito menor do que converter alguém.

E talvez muito maior.

Quem ocupa o intervalo?

Campanhas, partidos, comunidades religiosas, meios de comunicação, influenciadores, plataformas digitais, amigos e famílias participam legitimamente da construção de interpretações políticas. Isso não significa que toda mobilização seja manipulação.

Mas qualquer narrativa pode ocupar tanto o intervalo que deixamos de vivê-lo em primeira pessoa.

O “sequestro do entre”, como metáfora BrainLatam, começa quando alguém — ou o próprio algoritmo, ou nosso próprio medo — parece precisar preencher cada segundo com certeza, ameaça, promessa ou pertencimento.

A BrainLatam formula uma pergunta útil: diante de uma notícia, além de “é verdadeira ou falsa?”, também podemos perguntar quem está tentando estabelecer minha atenção agora e com qual consequência para meu Corpo-Território? (brainlatam)

Às vezes a melhor resposta não será outra postagem.

Será intervalo.

A plenitude de ainda não ter chegado

Talvez tenhamos aprendido a celebrar chegadas.

Resultado.

Vitória.

Derrota.

Posse.

Novo governo.

Continuidade.

Mas quase não temos rituais para estar no meio.

Agora ainda estamos em A.

B ainda não chegou.

Existe ansiedade.

Existe disputa.

Existe esperança.

Existe medo.

Existe notícia.

Existe ruído.

Mas existe também este instante extraordinário em que o futuro continua aberto.

Talvez possamos permanecer nele um pouco.

Não para fugir da democracia.

Mas para percebê-la acontecendo.

Não para abandonar nossas escolhas.

Mas para reconhecer de onde elas estão emergindo.

Não para encontrar uma transcendência produzida por um partido, uma igreja, uma plataforma ou um líder.

Mas para preservar a possibilidade de uma experiência que ainda seja nossa — e, justamente por isso, possa encontrar o outro.

Jiwasa.

Eu continuo eu.

Você continua você.

E por alguns instantes ambos podemos perceber:

ainda não chegamos.

Talvez o Calor Latente esteja justamente aqui.

Talvez uma epifania aconteça aqui.

Talvez alguma transcendência seja possível aqui.

Talvez Metanoia nem espere por B.

Talvez ela comece quando, em vez de correr para sair da transição, percebemos a plenitude de estar vivos exatamente entre A e B.


Referências comentadas

  • Hutcheon, E. A., Vakorin, V. A., Nunes, A., et al. (2023). Associations between spontaneous electroencephalogram oscillations and oxygen saturation across normobaric and hypobaric hypoxia. Human Brain Mapping, 44(6), 2345–2364.
    O que representa: abre a base científica do W40/2026. Durante a mudança de SpO₂, apareceram relações EEG–oxigenação que não permaneceram iguais após a estabilização. Introduz a pergunta central: o que o transiente revela que os estados estabilizados escondem?

  • Tribunal Superior Eleitoral — TSE. (2026). Calendário das Eleições Gerais de 2026.
    O que representa: ancora o blog no processo institucional real. Primeiro turno, eventual segundo turno, diplomação e posse são etapas temporalmente distintas; existe concretamente um entre institucional. (Justiça Eleitoral)

  • Zhao, C., Mu, N., Zhang, J., & Bao, Y. (2024). The temporal transition zone: A gradual approach to a subjective set-point within the three-second time window.
    O que representa: oferece uma ponte científica para pensar o presente subjetivo em uma escala aproximada de segundos, sem transformar 3,1 segundos em uma lei universal da consciência.

  • Jiang, T., Hicks, J. A., Yuan, W., et al. (2024). The unique nature and psychosocial implications of awe. Nature Reviews Psychology, 3, 475–488.
    O que representa: permite falar de transcendência com rigor fenomenológico: awe pode ampliar a perspectiva para além do self habitual e modificar nossa relação com algo percebido como maior do que nós. (Nature)

  • Wiley, J., & Danek, A. H. (2024). Restructuring processes and Aha! experiences in insight problem solving. Nature Reviews Psychology, 3, 42–55.
    O que representa: separa epifania sentida de verdade demonstrada. Uma experiência de Aha pode acompanhar reorganização cognitiva, mas a sensação de clareza não garante que a conclusão esteja correta. (Nature)

  • Gaggioli, A., et al. (2022). Defining Transformative Experiences: A Conceptual Analysis. Frontiers in Psychology, 13, 790300.
    O que representa: sustenta a prudência ao falar de Metanoia. Experiências transformadoras podem modificar visão de mundo, self e ação, mas constituem um campo heterogêneo e não possuem uma única definição ou assinatura neurobiológica. (Frontiers)

  • Pizzolante, M., Pelowski, M., Demmer, T. R., et al. (2024). Aesthetic experiences and their transformative power: a systematic review. Frontiers in Psychology.
    O que representa: mostra que transformação pode envolver discrepância, insight, epifania e efeitos posteriores. O acontecimento transformador não termina necessariamente no instante de maior intensidade; precisa ser integrado à experiência. (Frontiers)

  • Krenak, A. (2022). Futuro ancestral. Companhia das Letras.
    O que representa: devolve a discussão ao território latino-americano e ao presente vivido. O futuro entendido apenas como ameaça ou redenção pode nos afastar daquilo que já está acontecendo ao nosso redor. (Companhia das Letras)

  • OpenStax. Phase Change and Latent Heat. College Physics 2e.
    O que representa: fornece a base física da metáfora do Calor Latente: numa mudança de fase, energia pode ser absorvida ou liberada sem aparecer imediatamente como mudança de temperatura. No W40/2026 isso é usado exclusivamente como analogia, não como mecanismo cerebral ou político. (OpenStax)

  • BrainLatam. (2026). Jiwasa — When WE Feel the State Within the Body-Territory; Jiwasa Verdadero; Who Sets Your Attention?.
    O que representa: oferece a extensão conceitual BrainLatam que atravessa este blog: Jiwasa como um nós que não apaga as primeiras pessoas; e o intervalo consciente como espaço em que podemos perceber quem está tentando organizar nossa atenção antes de entregar a outro a interpretação daquilo que estamos vivendo. (brainlatam)






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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States