De dois cérebros a uma Constituição
De dois cérebros a uma Constituição
O que oito jovens neurocientistas podem descobrir se começarem perguntando como duas pessoas conseguem fazer juntas aquilo que nenhuma delas consegue fazer sozinha?
Imagine oito estudantes entrando em um congresso de neurociência.
Eles poderiam começar falando sobre neurônios.
Potenciais elétricos.
EEG.
Oscilações.
Sinapses.
Redes cerebrais.
Mas Ivo Leiva-Cisterna poderia começar com uma pergunta muito mais simples:
Duas pessoas conseguem fazer juntas algo que nenhuma delas conseguiria fazer sozinha?
Talvez alguém responda rapidamente:
“Sim.”
Então viria outra pergunta:
Como sabemos?
É exatamente nesse ponto que a neurociência deixa de ser apenas conteúdo aprendido e começa a se transformar em instrumento para pensar.
Durante o FALAN 2026, que será realizado em Santiago, Chile, entre 31 de agosto e 3 de setembro, oito estudantes da Brain Bee Chile terão a oportunidade de estar em contato com um dos maiores encontros de neurociência da América Latina e do Caribe. (LinkedIn)
Nossa proposta BrainLatam para esse encontro não é oferecer a eles uma resposta sobre sociedade.
É fazer algo talvez mais difícil:
começar pelo cérebro e continuar perguntando até que a própria pergunta fique grande demais para caber dentro dele.
Primeiro: conseguimos observar dois cérebros ao mesmo tempo?
Sim.
No Blog anterior falamos sobre hyperscanning: registrar simultaneamente a atividade cerebral de duas ou mais pessoas durante uma interação.
Mas o trabalho de Ivo Leiva-Cisterna e colegas, publicado em 2025 na Social Cognitive and Affective Neuroscience, deu um passo particularmente interessante.
Os pesquisadores não queriam apenas observar que dois cérebros ficavam mais sincronizados durante uma tarefa cooperativa.
Queriam perguntar:
E se modificarmos experimentalmente essa sincronização? A cooperação também muda?
Sessenta participantes, formando 30 duplas de pessoas que não se conheciam, realizaram uma tarefa em que precisavam coordenar seus tempos de resposta para vencer juntas. Metade das duplas participou da condição experimental e metade realizou a tarefa sem o protocolo de entrainment sensorial. (OUP Academic)
Na condição experimental, estímulos visuais rítmicos eram apresentados em 16 Hz ou 40 Hz, de maneira sincronizada ou com diferenças temporais entre os participantes.
O objetivo era modular a atividade neural dos dois membros da dupla e observar o que acontecia com sua coordenação.
E o que aconteceu?
As duplas submetidas ao entrainment apresentaram, no conjunto, uma taxa de cooperação de 65,7%, comparada a 53% no grupo controle.
O efeito comportamental mais claro apareceu nas condições de 16 Hz.
Importante:
as pessoas não ficaram simplesmente mais rápidas.
Os tempos de reação não apresentaram diferença geral significativa entre os grupos.
O que melhorou foi principalmente a proximidade entre as respostas dos parceiros.
Eles conseguiram coordenar-se melhor. (OUP Academic)
Os autores interpretam o conjunto de resultados como evidência de que a sincronização interbrain possui uma contribuição funcional para a coordenação cooperativa, indo além de ser apenas um efeito colateral de duas pessoas receberem estímulos semelhantes. (OUP Academic)
É um resultado provocador.
Mas precisamos manter a mesma humildade científica dos blogs anteriores.
Foram 30 duplas.
Uma tarefa específica.
Um paradigma específico de estimulação visual.
E o próprio estudo encontrou nuances: por exemplo, o fator de fase relativa entre estimulação sincronizada e dessincronizada não produziu sozinho o padrão simples que talvez imaginássemos.
Portanto:
16 Hz não é a “frequência da cooperação”.
E sincronização neural não é Jiwasa.
Mas agora temos uma pergunta experimental muito poderosa.
Segunda pergunta: onde estava a cooperação?
Estava no cérebro da pessoa A?
No cérebro da pessoa B?
Na tela?
Na sincronização?
Na regra da tarefa?
Ou estava na relação construída entre tudo isso?
A pessoa A não conseguia vencer sozinha.
A pessoa B também não.
Para obter sucesso, cada uma precisava produzir um movimento levando em consideração aquilo que a outra fazia.
Então o resultado não pertencia inteiramente a A.
Nem inteiramente a B.
Ele aparecia na coordenação:
A ↔ B.
Essa é uma ótima porta de entrada para apresentar Jiwasa aos estudantes.
Não como uma resposta.
Como uma pergunta.
Existe alguma coisa que só passa a existir quando existe um “nós”?
Terceira pergunta: existem dois cérebros ou dois corpos?
Agora podemos complicar.
Os participantes possuíam EEGs registrados sobre suas cabeças.
Mas quem apertava o botão não era um cérebro flutuando.
Era um corpo.
Olhos percebiam estímulos.
Mãos respondiam.
Sistemas autonômicos mantinham o organismo.
Experiências anteriores influenciavam atenção, confiança e estratégia.
Então perguntamos:
Podemos compreender aquela cooperação estudando apenas dois cérebros?
Provavelmente não.
O cérebro participa.
Mas participa em um organismo.
É aqui que BrainLatam propõe o Corpo-Território.
Não como variável medida por Leiva-Cisterna e colegas.
Como hipótese para perguntar se a unidade relevante para compreender uma ação humana precisa incluir o organismo situado em suas condições materiais, históricas, culturais e relacionais.
Agora já não temos apenas:
cérebro ↔ cérebro.
Temos:
Corpo-Território ↔ Corpo-Território.
Quarta pergunta: os dois corpos chegaram iguais ao experimento?
Não.
Mesmo que todos recebessem a mesma tela.
Cada pessoa chegou com uma história.
Uma língua.
Um repertório.
Uma maneira de confiar.
Uma experiência de cooperação.
Um corpo treinado em determinado território.
Isso nos leva a uma pergunta que oito jovens latino-americanos podem compreender sem qualquer fórmula:
Se mudarmos o território onde uma pessoa cresce, mudamos também aquilo que ela aprende a perceber como possível?
Uma criança com alimentação adequada, escola estável, segurança, livros, esporte, natureza e tempo disponível encontra um campo de possibilidades.
Outra, vivendo sob insegurança alimentar, violência e ausência de infraestrutura, encontra outro.
Não precisamos dizer que uma delas possui “um cérebro melhor”.
A pergunta é outra:
Elas receberam as mesmas possibilidades de movimento?
Aqui reaparece o APUS.
E talvez também nossa frase:
Você pode ser massificado pelas escolhas que nunca teve.
Porque antes de escolher entre A e B é necessário que A e B tenham aparecido como possibilidades.
Quinta pergunta: onde termina o território?
Na porta da casa?
No bairro?
Na cidade?
No país?
Pense no Chile.
Cordilheira.
Deserto.
Oceano.
Água.
Mineração.
Florestas.
Temperatura.
Qualidade do ar.
Terremotos.
Distâncias.
Essas condições não são apenas cenário.
Elas participam das possibilidades de viver.
Então podemos perguntar aos estudantes:
Um corpo consegue existir separado do Bioma que fornece água, alimento, temperatura, ar e condições de continuidade para sua vida?
Se a resposta for não, o caminho muda novamente.
Do cérebro fomos ao corpo.
Do corpo, ao território.
Do território, ao Bioma.
E talvez possamos representar assim:
cérebro → corpo → relação → território → Bioma.
Nenhuma Constituição apareceu ainda.
Sexta pergunta: quem organiza parte dessas possibilidades?
Aqui entra o Estado.
Quem decide onde haverá escola?
Hospital?
Saneamento?
Transporte?
Áreas verdes?
Proteção ambiental?
Conectividade?
Pesquisa?
Alimentação escolar?
Quem define direitos e deveres?
Quem organiza grande parte das condições coletivas nas quais um Corpo-Território poderá se desenvolver?
O Estado não produz todas as condições da vida.
Mas modifica muitas delas.
Então uma pergunta quase inevitável aparece:
Se condições territoriais modificam aquilo que um corpo consegue fazer, o Estado também participa indiretamente da construção dos movimentos possíveis de seus cidadãos?
Agora a neurociência encontrou a política.
Não porque um EEG nos diga como governar.
Mas porque estudar causalidade nos ensinou a continuar perguntando:
o que veio antes?
Sétima pergunta: qual é a unidade que o Estado enxerga?
Uma pessoa pode aparecer para o Estado como:
CPF.
RUT.
Endereço.
Renda.
Diagnóstico.
Matrícula.
Beneficiário.
Eleitor.
Contribuinte.
Mas o que desaparece quando dividimos a mesma pessoa em vários bancos de dados?
Sua relação com o território?
Qualidade da água?
Tempo de deslocamento?
Exposição à violência?
Acesso ao Bioma?
Rede comunitária?
Possibilidades de educação?
Talvez possamos perguntar aos oito estudantes:
O Estado consegue compreender uma pessoa olhando apenas para os documentos que criou para representá-la?
E então introduzir, explicitamente como proposta BrainLatam:
E se experimentássemos pensar o Corpo-Território como unidade mínima de reconhecimento do Estado?
Não estamos dizendo que a neurociência demonstrou que essa deve ser a organização constitucional correta.
Não demonstrou.
Estamos construindo uma hipótese política a partir de uma sequência causal de perguntas.
Oitava pergunta: e se vocês tivessem que escrever uma Constituição?
Agora, finalmente, chegamos à Constituição.
Não começamos dizendo aos estudantes o que ela deveria conter.
Começamos com:
EEG.
Depois:
dois cérebros.
Depois:
cooperação.
Depois:
dois corpos.
Depois:
território.
Depois:
Bioma.
Depois:
Estado.
Somente agora poderíamos perguntar:
Se vocês fossem escrever uma nova Constituição depois desta conversa, o que perguntariam antes de escrever o primeiro artigo?
Talvez alguém fale sobre educação.
Outro sobre saúde.
Outro sobre água.
Tecnologia.
Cidade.
Economia.
Meio ambiente.
Democracia.
As respostas podem ser diferentes.
Isso é desejável.
O objetivo não é fazer oito estudantes repetirem BrainLatam.
Seria contraditório com tudo aquilo que estamos propondo.
O objetivo é ampliar o APUS constitucional deles:
fazer aparecer perguntas que talvez não estivessem disponíveis no início da conversa.
Onde termina o artigo e começa a BrainLatam
Leiva-Cisterna e colegas investigaram 30 duplas realizando uma tarefa cooperativa e utilizaram estimulação sensorial visual rítmica para modular a sincronização interbrain. O entrainment esteve associado a maior sincronização nas frequências-alvo e a melhor coordenação comportamental, com efeito particularmente pronunciado no protocolo de 16 Hz. (OUP Academic)
Até aqui:
Leiva-Cisterna e colegas.
O artigo não estudou:
Corpo-Território.
APUS.
Jiwasa.
Bioma.
Estado.
Constituição.
A partir daqui:
BrainLatam.
Nossa hipótese é que o estudo oferece uma oportunidade pedagógica extraordinária para fazer uma pergunta crescer.
Se podemos perguntar experimentalmente como dois organismos coordenam uma ação, podemos começar a investigar quais condições ampliam ou restringem essa coordenação.
Se o organismo depende de um território, podemos perguntar como o território participa de seus movimentos possíveis.
Se território depende de condições ecológicas, encontramos o Bioma.
E se instituições modificam sistematicamente essas condições, encontramos o Estado.
Não como resultado de uma frequência cerebral.
Como uma nova escala da pergunta.
Talvez a neurociência não possa escrever uma Constituição.
Nem deveria tentar fazer isso sozinha.
Mas talvez possa ajudar uma geração a perguntar:
Que condições precisam existir para que diferentes Corpos-Territórios possam participar da construção de um movimento coletivo sem que alguns tenham de desaparecer para que outros possam existir?
E então talvez apareça a pergunta que não precisamos entregar pronta aos oito estudantes:
Qual deveria ser a unidade mínima que um Estado precisa reconhecer antes de começar a organizar uma sociedade?
Talvez alguém responda:
o indivíduo.
Outro:
a família.
Outro:
a comunidade.
Outro:
o território.
E talvez alguém pergunte:
Por que separar aquilo que nunca existiu separado?
Nesse momento, talvez Corpo-Território deixe de ser uma definição oferecida por BrainLatam.
E passe a ser uma hipótese que os próprios estudantes decidiram investigar.
Neuro Desafio Latam
Comece com uma pergunta simples:
O que duas pessoas conseguem fazer juntas que nenhuma delas consegue fazer sozinha?
Agora continue perguntando “de que isso depende?” até chegar ao Estado.
Sua última pergunta ainda será sobre o cérebro?
Referência científica
Leiva-Cisterna, I., Barraza, P., Rodríguez, E., & Dumas, G. (2025). Sensory multi-brain stimulation enhances dyadic cooperative behavior. Social Cognitive and Affective Neuroscience, 20(1), nsaf104. https://doi.org/10.1093/scan/nsaf104