O que acontece entre dois cérebros quando começamos a agir juntos?
O que acontece entre dois cérebros quando começamos a agir juntos?
Lembre-se de uma conversa em que duas pessoas começaram a compreender algo juntas. O que mudou entre a primeira pergunta e aquele instante em que surgiu uma possibilidade que nenhuma delas havia imaginado sozinha?
Série especial BrainLatam | VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da UFABC — 2026
QUANDO UMA CONVERSA MUDA DE DIREÇÃO
Talvez você consiga recordar uma conversa que começou com uma dúvida.
Uma pessoa apresentou uma ideia. Você respondeu com outra perspectiva. Houve uma pausa. Alguém fez uma pergunta inesperada.
De repente, surgiu uma possibilidade que parecia não existir antes daquele encontro.
Observe sua lembrança.
Talvez uma expressão facial tenha mudado. Talvez sua respiração tenha ficado mais tranquila. Ou talvez o momento decisivo tenha sido uma discordância.
O que acontece entre dois organismos quando começam a construir uma compreensão compartilhada?
Essa pergunta dialoga diretamente com o VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da Universidade Federal do ABC (UFABC), programado para 16 a 19 de novembro de 2026, sob o tema “O Cérebro em Contexto: Desafios Contemporâneos da Neurociência Interdisciplinar”.
Nos blogs anteriores, percorremos vínculos entre mamíferos e formas de organização dos sistemas complexos.
Agora podemos investigar os instantes em que dois cérebros participam de uma interação viva.
DOIS CÉREBROS NÃO SÃO UM CÉREBRO MAIOR
Durante muito tempo, numerosos experimentos de neurociência social investigaram pessoas individualmente.
Um participante observava imagens, escutava histórias ou respondia a perguntas.
Esses estudos produziram conhecimentos fundamentais.
Mas uma conversa real apresenta algo adicional: cada pessoa modifica continuamente as condições encontradas pela outra.
Uma resposta inesperada pode transformar a próxima pergunta.
Um silêncio pode produzir uma interpretação diferente.
O olhar de alguém pode modificar o rumo do encontro.
Nesse processo, dois organismos permanecem distintos, mas suas ações tornam-se interdependentes.
Essa diferença inspirou pesquisas capazes de registrar simultaneamente a atividade cerebral de duas ou mais pessoas.
A abordagem é conhecida como hyperscanning.
Sua importância está em permitir que a interação seja investigada enquanto acontece, em vez de estudar exclusivamente respostas individuais a estímulos previamente definidos.
O QUE SIGNIFICA SINCRONIZAR?
Imagine duas pessoas batendo palmas no mesmo ritmo.
Seus movimentos podem apresentar correspondência temporal.
Agora imagine duas pessoas assistindo ao mesmo filme.
Determinados acontecimentos podem provocar respostas neurais semelhantes.
Em ambos os casos, podemos observar alguma forma de alinhamento.
Mas existe uma diferença importante entre responder ao mesmo estímulo e influenciar reciprocamente outra pessoa.
A sincronia entre sinais cerebrais, frequentemente chamada de inter-brain synchrony, descreve relações temporais ou estatísticas entre atividades registradas em indivíduos diferentes.
Ela não demonstra, por si só, compreensão mútua, cooperação ou consciência compartilhada.
Duas pessoas podem apresentar respostas semelhantes porque recebem estímulos parecidos, realizam a mesma tarefa ou compartilham condições fisiológicas.
Por isso, precisamos investigar também aquilo que efetivamente acontece na interação.
UMA DESCOBERTA DENTRO DA PRÓPRIA UFABC
Existe uma conexão particularmente relevante com o simpósio.
Em 2023, Amanda Yumi Ambriola Oku, Eneyse Dayane Pinheiro, Raimundo da Silva Soares Junior e João Ricardo Sato, pesquisadores vinculados à UFABC, publicaram um trabalho sobre interações entre professores e estudantes.
O estudo utilizou hyperscanning com fNIRS e conceitos da teoria dos grafos para analisar relações entre atividades cerebrais durante situações educacionais.
Isso aproxima nossa pergunta de um ambiente conhecido.
Imagine um professor explicando determinado conceito.
Um estudante demonstra dúvida. O professor modifica sua explicação. Outro exemplo transforma o entendimento.
O que investigaríamos nesse encontro?
Talvez a correspondência entre determinados sinais cerebrais.
Mas também os turnos de fala, as perguntas, as hesitações e as transformações na compreensão.
A aprendizagem acontece em organismos individuais, porém suas condições podem ser continuamente modificadas pela relação.
QUANDO DUAS CRIANÇAS PROCURAM UMA SOLUÇÃO
Em agosto de 2026, Raimundo da Silva Soares Junior e João Ricardo Sato publicaram outro estudo, agora sobre acoplamento entre atividades cerebrais durante a resolução colaborativa de Tangram por duplas de crianças.
O Tangram é um quebra-cabeça formado por peças geométricas que podem ser combinadas para produzir figuras.
Imagine duas crianças diante das peças.
Uma tenta determinada combinação.
A outra percebe uma possibilidade diferente.
A primeira modifica sua escolha.
O estudo exploratório utilizou fNIRS para investigar esse tipo de interação naturalística.
Como acontece em pesquisas iniciais, seus resultados precisam ser interpretados considerando o número de participantes, o protocolo e as limitações das medidas.
Ainda assim, o trabalho evidencia uma possibilidade científica importante:
Podemos observar a construção de uma solução enquanto diferentes participantes modificam reciprocamente suas ações.
E podemos perguntar se os indicadores neurais acrescentam informações às observações comportamentais.
UMA PESQUISA CHILENA NOS ENSINA A DESCONFIAR DAS APARÊNCIAS
Em 2026, pesquisadores ligados à Universidad Adolfo Ibáñez, no Chile, incluindo Lukas Valenzuela e Vicente Soto, investigaram dez duplas de amigos latino-americanos.
Os participantes realizaram atividades cooperativas com peças de Jenga, assistiram a vídeos e permaneceram em repouso.
Os pesquisadores registraram simultaneamente a atividade cerebral utilizando EEG móvel.
Durante a tarefa cooperativa, encontraram aumento de determinadas medidas de sincronia.
Mas uma análise adicional revelou algo fundamental.
Parte desse aumento podia estar relacionada às características compartilhadas da tarefa, sem indicar necessariamente uma conexão específica entre os parceiros.
Outras medidas apresentaram evidências mais particulares de acoplamento entre integrantes das duplas.
Dois cérebros podem parecer sincronizados sem que isso signifique que estejam compartilhando a mesma informação.
O estudo reforça a importância de controles experimentais, análises espectrais e comparações com pares artificiais de participantes.
UMA CONVERSA PODE APROXIMAR OU DIFERENCIAR
Em 2024, Sebastian Speer e colaboradores investigaram conversas entre amigos e desconhecidos utilizando ressonância magnética funcional simultânea.
Os pesquisadores observaram trajetórias diferentes.
Entre desconhecidos, padrões neurais e linguísticos tenderam a tornar-se mais semelhantes ao longo da conversa.
Entre amigos, houve maior diferenciação e exploração de assuntos variados.
Esses resultados pertencem às condições específicas daquele experimento e não estabelecem uma regra universal.
Mas nos oferecem uma pergunta surpreendente:
Será que compreender alguém pode significar tanto encontrar semelhanças quanto permitir que diferenças apareçam?
A possibilidade de explorar perspectivas distintas também participa das relações.
Talvez uma conversa transforme seus participantes justamente porque eles não precisam terminar pensando da mesma maneira.
O CORPO TAMBÉM PARTICIPA DA CONVERSA
Uma conversa acontece entre cérebros, mas também entre corpos.
Respiração, frequência cardíaca, postura, movimento e expressão facial podem modificar-se durante uma interação.
Pesquisadores associados à Universidad Diego Portales, no Chile, incluindo Stefanella Costa-Cordella, Josefina Mattoli-Sánchez e Francisco J. Parada, participaram de uma revisão sobre embodied hyperscanning.
Essa abordagem reúne medidas cerebrais e corporais para investigar interações sociais.
O objetivo não é presumir que todas as respostas fisiológicas devam sincronizar-se.
É compreender como diferentes processos podem relacionar-se ao longo do encontro.
Imagine duas pessoas conversando depois de uma situação difícil.
Uma permanece agitada.
A outra escuta.
Seus ritmos fisiológicos talvez sejam diferentes, e essa diferença pode participar da interação.
Estar junto não exige necessariamente sentir tudo da mesma maneira.
QUANDO O CONTEXTO MUDA O SIGNIFICADO DOS SINAIS
Entre os pesquisadores anunciados para o simpósio está Rafael Naime Ruggiero, da UNIFESP, que investiga oscilações e sincronização entre redes cerebrais.
Seu trabalho aproxima a discussão de um cuidado metodológico essencial.
A sincronização dentro de um cérebro e aquela observada entre diferentes cérebros não são fenômenos equivalentes.
Também precisamos considerar que sinais hemodinâmicos, como os registrados pela fNIRS, podem sofrer influência de processos fisiológicos sistêmicos.
Respiração, circulação sanguínea e movimento podem participar das medidas.
Por isso, uma investigação multimodal precisa interpretar cada sinal segundo suas propriedades.
O desafio científico não é encontrar sincronia em todas as situações.
É compreender quais processos ela representa, quando aparece e o que acontece quando desaparece.
CINCO PESSOAS PODEM PRODUZIR MAIS QUE CINCO RESPOSTAS?
Vamos imaginar cinco participantes tentando resolver um problema.
Na primeira etapa, cada pessoa trabalha separadamente.
Na segunda, todos recebem uma instrução comum.
Na terceira, qualquer participante pode apresentar uma alternativa e modificar o caminho coletivo.
Talvez surjam discordâncias.
Talvez alguém identifique um erro que os demais não perceberam.
Talvez o grupo encontre uma solução inesperada.
Esse protocolo imaginado poderia registrar decisões, movimentos, turnos de fala, EEG, fNIRS, ECG e respiração.
Como representante da Artinis & NIRx e da Brain Products, a BrainLatam aproxima pesquisadores de tecnologias de neuroimagem funcional, eletroencefalografia e investigação multimodal.
Mas precisamos distinguir o que esses instrumentos podem medir daquilo que desejamos compreender.
Eles não detectam diretamente liberdade, pertencimento ou consciência coletiva.
Esses conceitos exigem definições, medidas comportamentais e interpretações complementares.
JIWASA: COMPREENDER JUNTOS SEM PENSAR IGUAL
Na BrainLatam, propomos o Corpo-Território como unidade indivisível de existência, sensibilidade e participação no mundo.
Nossa formulação autoral de Jiwasa investiga a possibilidade de uma agência compartilhada que preserve a singularidade dos participantes.
Isso não significa procurar um cérebro coletivo.
Tampouco significa transformar sincronia neural em prova de uma consciência comum.
Podemos compreender Jiwasa como uma pergunta sobre as condições nas quais diferentes pessoas conseguem participar da transformação de um Nós.
Uma conversa pode apresentar concordância sem participação real.
Outra pode conter divergências e, ainda assim, ampliar as possibilidades de todos.
Essa distinção permanece filosófica e institucional, embora alguns de seus aspectos possam inspirar investigações experimentais.
O INSTANTE EM QUE ALGO NOVO SE TORNA POSSÍVEL
Voltemos à conversa que você recordou no início.
Talvez uma pessoa tenha apresentado uma pergunta que você ainda não sabia formular.
Talvez você tenha oferecido uma experiência que ela desconhecia.
O resultado não precisou ser uma ideia idêntica nos dois cérebros.
Pode ter sido uma transformação diferente em cada participante.
A neurociência já consegue investigar aspectos dessas interações com resolução temporal e espacial cada vez mais sofisticada.
Mas permanecem abertas perguntas sobre significado, compreensão, autonomia e experiência subjetiva.
Talvez a próxima descoberta esteja justamente nas relações que ainda não sabemos medir.
Quando duas pessoas começam a compreender algo juntas, o que se transforma em cada uma - e o que passa a ser possível entre elas?
Jiwasa: a possibilidade de Ser muitos sem que cada um precise deixar de Ser.
Sobre esta série
Este artigo integra a série especial da BrainLatam, patrocinadora do VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da UFABC, previsto para 16 a 19 de novembro de 2026, em São Bernardo do Campo.
O texto dialoga com pesquisas realizadas na própria UFABC, contribuições de pesquisadores latino-americanos sobre hyperscanning e os temas anunciados para o simpósio, especialmente os estudos de Rafael Naime Ruggiero sobre sincronização cerebral.
As interpretações autorais não representam necessariamente as posições dos pesquisadores ou da organização do evento.
Evento oficial: https://www.even3.com.br/viii-simposio-em-neurociencia-e-cognicao-da-universidade-federal-do-abc-761401/
Referências — Uma segunda leitura do blog
1. Estudar dois cérebros simultaneamente permite investigar interações que um experimento individual não consegue representar inteiramente.
Hakim, U. et al. (2023). Quantification of inter-brain coupling: A review of current methods used in haemodynamic and electrophysiological hyperscanning studies. NeuroImage, 280, 120354.
A revisão apresenta métodos utilizados em estudos de hyperscanning e destaca diferenças metodológicas que influenciam a interpretação da sincronia.
https://doi.org/10.1016/j.neuroimage.2023.120354
2. Pesquisadores da UFABC investigam como atividades cerebrais podem relacionar-se durante encontros entre professores e estudantes.
Oku, A. Y. A.; Pinheiro, E. D.; Soares Jr., R. S.; Sato, J. R. (2023). Analyzing teacher-student interactions through graph theory applied to hyperscanning fNIRS data. Progress in Brain Research, 282, 123–143.
O trabalho utiliza fNIRS e teoria dos grafos para estudar padrões de interação cerebral em um contexto educacional.
https://doi.org/10.1016/bs.pbr.2023.10.005
3. A resolução colaborativa de problemas pode ser investigada enquanto duas crianças constroem uma solução.
Soares Junior, R. S.; Sato, J. R. (2026). Inter-brain coupling during naturalistic collaborative Tangram solving in child dyads: an exploratory fNIRS hyperscanning study. Brain Structure and Function, 231, artigo 128.
A pesquisa da UFABC explora relações entre sinais cerebrais durante uma atividade conjunta de montagem de figuras.
https://doi.org/10.1007/s00429-026-03187-5
4. Nem toda sincronia observada durante uma tarefa representa uma conexão específica entre os participantes.
Valenzuela, L.; Cavallaro, R.; Mangeng, A.; Pérez-Arenas, X.; Carollo, A.; Esposito, G.; Medel, V.; Soto, V. (2026). Aperiodic activity shapes inter-brain synchrony during cooperative puzzle solving: dissociable task-enhanced and partner-specific spectral signatures. NeuroImage, 338, 122116.
Com participantes latino-americanos e pesquisadores vinculados ao Chile, o estudo diferencia efeitos compartilhados da tarefa de medidas mais específicas das duplas.
https://doi.org/10.1016/j.neuroimage.2026.122116
5. Compreender alguém também pode envolver a exploração de diferenças, não apenas a aproximação de padrões neurais.
Speer, S. P. H. et al. (2024). Hyperscanning shows friends explore and strangers converge in conversation. Nature Communications, 15, 7781.
O estudo encontra trajetórias distintas entre conversas de amigos e desconhecidos, mostrando a importância do contexto relacional.
https://doi.org/10.1038/s41467-024-51990-7
6. O estudo das interações precisa considerar também os movimentos e processos fisiológicos dos corpos.
Grasso-Cladera, A.; Costa-Cordella, S.; Mattoli-Sánchez, J.; Vilina, E.; Santander, V.; Hiltner, S. E.; Parada, F. J. (2025). Embodied hyperscanning for studying social interaction: A scoping review of simultaneous brain and body measurements. Social Neuroscience, 20(3), 163–179.
Com participação de pesquisadores vinculados ao Chile, a revisão explora estudos que combinam registros cerebrais e corporais durante interações.
https://doi.org/10.1080/17470919.2024.2409758
7. A sincronia neural não deve ser confundida automaticamente com o compartilhamento de informações.
Varlet, M.; Grootswagers, T. (2024). Measuring information alignment in hyperscanning research with representational analyses: moving beyond interbrain synchrony. Frontiers in Human Neuroscience, 18, 1385624.
O trabalho demonstra limitações das medidas convencionais de sincronia e propõe análises voltadas ao conteúdo das representações.
https://doi.org/10.3389/fnhum.2024.1385624
8. Uma conversa pode transformar os modelos internos utilizados por duas pessoas para resolver uma tarefa compartilhada.
Koike, T.; Okazaki, S.; Sumiya, M.; Nakagawa, E.; Hirotani, M.; Sadato, N. (2025). The neural basis of sharing information through goal-directed conversation: A hyperscanning functional magnetic resonance imaging study. Cortex, 187, 74–97.
O estudo investiga padrões de atividade e acoplamento cerebral durante conversas necessárias à resolução de tarefas conjuntas.
https://doi.org/10.1016/j.cortex.2024.11.026
9. A investigação da sincronia entre redes cerebrais contribui para compreender diferentes mecanismos cognitivos e clínicos.
Ruggiero, R. N. Perfil acadêmico e linhas de pesquisa. Universidade Federal de São Paulo.
O pesquisador brasileiro desenvolve estudos sobre mecanismos neurais e oscilações cerebrais relacionados à cognição e ao comportamento.
http://lattes.cnpq.br/5372318020253092
10. Investigar o cérebro em contexto pode aproximar a neurociência das relações que constituem nossas experiências.
UFABC (2026). VIII Simpósio em Neurociência e Cognição — O Cérebro em Contexto: Desafios Contemporâneos da Neurociência Interdisciplinar.
O encontro propõe um diálogo interdisciplinar entre estudos do cérebro, corpo, comportamento e ambiente.
Nota conceitual: Corpo-Território, Consciência 5D e Jiwasa são formulações autorais da BrainLatam. Os estudos citados fundamentam aspectos específicos das interações neurofisiológicas e comportamentais, sem constituírem validação experimental dessas propostas.
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