Jackson Cionek
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APUS e Tekoha - como o mundo entra no corpo e o corpo retorna ao mundo

APUS e Tekoha -  como o mundo entra no corpo e o corpo retorna ao mundo

Onde termina o nosso corpo?

Imaginemos juntos uma criança entrando pela primeira vez em uma sala de aula.

Antes de compreender as palavras da professora, seus pés procuram apoio. Os olhos calculam distâncias. O corpo percebe a altura da cadeira, a proximidade de outras pessoas, a intensidade da luz, o ruído e as possibilidades de movimento. Ao mesmo tempo, a respiração muda, o coração acelera ou desacelera, o estômago se contrai e surge uma sensação que talvez ainda não possa ser nomeada.

Tudo isso acontece dentro da criança ou entre ela e a sala?

A educação colonial frequentemente separa antes de explicar: corpo e ambiente, razão e emoção, sujeito e objeto, interior e exterior. A NeuroEducação do Weichö propõe suspender provisoriamente essas divisões para observar o movimento inteiro.

Como espaços, objetos, relações e tecnologias se tornam parte da organização de um Corpo-Território?

Duas janelas, não duas traduções

Neste bloco, utilizamos Tekoha como uma janela para perguntar sobre o território vivido por dentro: respiração, pulsação, fome, temperatura, tensão, alívio, cansaço e outras manifestações corporais que a neurociência investiga parcialmente por meio da interocepção.

Utilizamos APUS para abrir perguntas sobre o território exterior incorporado: postura, direção, equilíbrio, alcance, movimento, ferramentas e possibilidades de ação.

Mas precisamos construir essa aproximação com cuidado:

Tekoha não é uma tradução indígena de interocepção, assim como APUS não é uma tradução de propriocepção.

São janelas conceituais utilizadas provisoriamente pela BrainLatam para questionar os limites das categorias científicas disponíveis. Os conceitos originários não devem ser retirados de seus povos e transformados apenas em nomes alternativos para teorias ocidentais.

A exposição Mundos Indígenas, construída pela UFMG com curadoras e curadores Yanomami, Ye’kwana, Xakriabá, Tikmũ’ũn e Pataxoop, propõe conhecer esses mundos em seus próprios termos, evitando traduzi-los imediatamente para aquilo que já conhecemos.

A pergunta não é qual palavra substituirá a outra.

A pergunta é:

O que começamos a perceber quando uma nova palavra desorganiza nossas antigas separações?

Tekoha: o território que se manifesta por dentro

A interocepção envolve a detecção, a integração e a interpretação de sinais relacionados ao estado do corpo. Ela não se limita a perceber conscientemente o coração. Inclui processos associados à respiração, temperatura, dor, fome, sede, atividade visceral e regulação fisiológica.

Uma revisão publicada em 2024 mostra que a consciência corporal emerge da integração entre interocepção, propriocepção, tato, visão e outras informações sensoriais. Isso significa que sentir o corpo não é o mesmo que consultar um instrumento interno perfeitamente objetivo.

Uma aceleração cardíaca pode ser vivida como medo, entusiasmo, esforço físico ou sinal de doença, dependendo do contexto, da história e das expectativas da pessoa.

Pensemos em um estudante antes de uma prova.

Sua respiração fica curta. Os ombros sobem. Surge uma pressão no peito. A atenção começa a se concentrar nas possíveis ameaças: errar, ser julgado, decepcionar a família ou não compreender as perguntas.

A escola talvez registre apenas:

“O aluno não conseguiu se concentrar.”

Mas podemos perguntar juntos:

A dificuldade estava no conteúdo, na capacidade do estudante ou em um Tekoha ocupado em proteger o Corpo-Território?

Isso não significa que possamos diagnosticar uma emoção observando a respiração. Sinais corporais são ambíguos. Eles precisam encontrar a consciência em primeira pessoa:

  • O que você percebeu?

  • O que aconteceu antes?

  • Essa interpretação representa sua experiência?

  • O ambiente permitia que você se sentisse seguro?

APUS: o espaço que o corpo aprende a incorporar

A propriocepção participa da percepção consciente e inconsciente da posição e do movimento corporal. Ela permite ajustar uma mão sem observá-la continuamente, controlar a força, manter o equilíbrio e coordenar ações.

Mas o espaço ao redor do corpo também não é uma geometria fixa.

A neurociência utiliza o conceito de espaço peripessoal para investigar a região próxima ao corpo na qual podemos alcançar objetos ou ser alcançados por eles. Esse espaço combina informações visuais, táteis, auditivas e motoras, modificando-se de acordo com movimento, experiência, ameaça e interação social.

Quando utilizamos uma ferramenta, algo importante pode acontecer.

O lápis, o martelo, a bengala, a bicicleta ou o telefone deixam de ser apenas objetos exteriores. Durante a ação, o corpo reorganiza cálculos de alcance, precisão e possibilidade ao redor dessas ferramentas.

Um estudo publicado em 2024 mostrou que o treinamento com ferramentas em realidade virtual pode modificar medidas do espaço peripessoal. Isso não prova que a ferramenta se transforme literalmente em uma parte anatômica do corpo. Mostra, porém, que nossas fronteiras funcionais são plásticas.

Podemos então perguntar:

Uma tecnologia apenas obedece ao corpo ou também ensina ao corpo o que ele pode alcançar, perceber e desejar?

A sala de aula também participa do pensamento

Uma cadeira inadequada modifica a postura. Uma mesa muito alta tensiona os ombros. O ruído aumenta o esforço necessário para compreender a fala. A proximidade de outras pessoas pode produzir pertencimento ou defesa. A distância da tela reorganiza os olhos, o pescoço e o campo de atenção.

A sala não é apenas o recipiente neutro no qual uma mente aprende.

Ela participa materialmente do acontecimento da aprendizagem.

Perspectivas de cognição incorporada questionam a ideia de que primeiro pensamos dentro da cabeça e depois utilizamos o corpo para executar uma decisão. Percepção, ação, linguagem e abstração mantêm relações profundas com experiências sensório-motoras.

Entretanto, a cognição incorporada também não deve ser apresentada como uma explicação total. Ela é um campo de investigação aberto, que nos ajuda a formular perguntas melhores sem encerrar o fenômeno.

Aqui surge outra pergunta:

Quantas dificuldades chamadas de cognitivas também podem ser dificuldades de postura, respiração, segurança, arquitetura, movimento ou pertencimento?

Quando APUS se torna Tekoha

Imaginemos agora um adolescente utilizando óculos de realidade virtual.

Seu corpo material permanece em uma sala, mas seus movimentos respondem a outro espaço. Ele se inclina para evitar um objeto que não existe fisicamente no ambiente, sente vertigem diante de uma altura digital e reage corporalmente à aproximação de um avatar.

Onde está seu APUS?

Na sala física? No ambiente virtual? Na coordenação entre ambos?

A experiência digital modifica postura, respiração, expectativa, emoção e memória. Aquilo que inicialmente aparece como território exterior pode se transformar em tensão muscular, aceleração cardíaca, hábito ou sensação interna.

Nesse movimento, o APUS participa da formação do Tekoha.

O movimento contrário também acontece. Fome, dor, tranquilidade, medo ou cansaço modificam quais distâncias parecem possíveis, quais pessoas podem se aproximar e quais objetos atraem nossa atenção.

O Tekoha reorganiza o APUS.

O mundo participa da organização do corpo, e o estado do corpo modifica o mundo que pode ser percebido e habitado.

O Corpo-Território 5D

Na interpretação BrainLatam de que A Consciência é Espacial, essa circulação pode ser pensada em um Corpo-Território 5D:

  • três dimensões materiais;

  • movimento;

  • qualia.

As três dimensões materiais incluem o cérebro, o restante do corpo, os objetos, a arquitetura e as pessoas presentes.

O movimento inclui respiração, circulação, atividade elétrica, alterações hemodinâmicas, deslocamentos, gestos e transformações relacionais.

O qualia corresponde ao modo como aquele acontecimento é vivido em primeira pessoa: medo, confiança, vertigem, familiaridade, estranhamento ou pertencimento.

Essa é uma interpretação teórica da BrainLatam, e não uma conclusão diretamente demonstrada pelos estudos mencionados.

O modelo 5D não pretende substituir a neurociência, a filosofia ou os saberes originários. Procura oferecer uma mesa comum para perguntar como matéria, transformação e experiência participam do mesmo acontecimento.

O corpo como território de passagem

Ailton Krenak nos convida a abandonar a ideia de uma humanidade separada da terra e dos demais seres. Seu pensamento amplia nossa pergunta: talvez o mundo não entre em um corpo anteriormente isolado, porque esse corpo nunca esteve fora do mundo.

Podemos elaborar juntos a ideia central deste blog:

APUS é uma janela para observar como o Corpo-Território incorpora possibilidades de ação no mundo. Tekoha é uma janela para perceber como essas relações se manifestam e se reorganizam por dentro. Entre ambos não existe uma fronteira imóvel, mas uma vida em transformação.

A educação muda quando deixamos de perguntar somente:

“Qual informação entrou na mente do estudante?”

E passamos a perguntar:

Que espaço, postura, relação, tecnologia e experiência corporal permitiram — ou impediram — que esse conhecimento encontrasse lugar?

Talvez algumas dificuldades consideradas exclusivamente cognitivas também sejam dificuldades de coordenação entre o território que sentimos por dentro e o mundo que tentamos habitar por fora.

Referências comentadas

Parma, J. O. et al. (2024). An Overview of the Bodily Awareness Representation and Interoception.
A revisão mostra que a consciência corporal resulta da integração entre interocepção, propriocepção e outras informações sensoriais, e não de um único sistema isolado.

Valdes, K.; Capistran Manalang, K.; Leach, C. (2024). Proprioception: An Evidence-Based Review.
O trabalho apresenta a propriocepção como percepção consciente e inconsciente da posição e do movimento, destacando sua importância para o controle corporal e seus diferentes métodos de avaliação.

Petrizzo, I. et al. (2024). Reshaping the Peripersonal Space in Virtual Reality.
O experimento indica que o uso de ferramentas em realidade virtual pode modificar medidas do espaço peripessoal, revelando a plasticidade das fronteiras funcionais entre corpo e ambiente.

Barrett, L.; Stout, D. (2024). Minds in Movement: Embodied Cognition in the Age of Artificial Intelligence.
Os autores discutem como ação, percepção, linguagem e abstração dependem de processos corporais, apresentando a cognição incorporada como um programa interdisciplinar ainda aberto.

Angeli, A. A. C. et al. (2024). No passo Guarani: contribuições para pensar os corpos neste chão Brasil.
O artigo dialoga com especialistas Guarani para questionar a separação ocidental entre corpo e território, mostrando que os corpos são produzidos em relações históricas, coletivas e territoriais.

Espaço do Conhecimento UFMG (2023). Conhecendo mundos: relato de experiências e possibilidades educativas na exposição Mundos Indígenas.
O texto apresenta uma metodologia de aproximação que evita traduzir imediatamente conceitos indígenas para categorias ocidentais, permitindo que outros mundos modifiquem as perguntas do visitante.

Krenak, A. (2022). Futuro ancestral.
Krenak propõe que o futuro depende da renovação das relações entre corpos, gerações, rios e territórios, questionando a ideia moderna de uma humanidade separada do mundo.









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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States