Jackson Cionek
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Antes das palavras - o outro já participa da arquitetura da linguagem

Antes das palavras - o outro já participa da arquitetura da linguagem

Antes de uma criança pronunciar sua primeira palavra, muita coisa já aconteceu.

Ela já ouviu milhares de vozes. Já encontrou ritmos, intensidades, pausas e repetições. Já ouviu palavras em determinados cômodos, diante de certos objetos, durante refeições, brincadeiras, despedidas, pedidos, movimentos e afetos.

Mas talvez haja uma pergunta ainda mais interessante:

o bebê aprende apenas quais sons se repetem — ou aprende também onde, quando, com quem e em quais condições essas diferenças aparecem?

Essa pergunta permite aproximar três linhas de pesquisa que, embora tenham objetivos distintos, parecem conversar de maneira especialmente fértil: os estudos recentes de Marina Kalashnikova sobre fala dirigida ao bebê, os trabalhos clássicos de Patricia Kuhl sobre especialização fonética e o Human Speechome Project, iniciado por Deb Roy no MIT.

Juntos, eles sugerem algo importante:

a linguagem não emerge apenas da repetição de sons. Ela emerge de diferenças que se repetem dentro de encontros.

Antes do significado, o sinal já está sendo organizado

Em 2026, Marina Kalashnikova, Laura Fernandez-Merino e Nicola Molinaro publicaram na Developmental Cognitive Neuroscience o artigo Neural encoding of infant-directed speech during infants' first year of life.

O trabalho investigou como o cérebro infantil acompanha a fala dirigida diretamente ao bebê - infant-directed speech, ou IDS - comparada à fala dirigida a adultos.

A pergunta é importante porque, quando falamos com bebês, não produzimos simplesmente as mesmas palavras de maneira mais carinhosa. Alteramos características físicas do sinal: ritmo, entonação, pitch, duração e distribuição espectral.

Os resultados indicaram uma codificação neural mais eficiente da fala dirigida ao bebê, sugerindo que suas características acústicas favorecem o acompanhamento do sinal durante o primeiro ano de vida. PubMed

Mas isso ainda não significa significado.

O bebê não precisa saber o que uma palavra significa para que diferenças temporais, espectrais e fonéticas já estejam sendo transduzidas.

Essa distinção é central:

a diferença pode começar a modificar o Corpo antes que exista um significado lexical consolidado.

Mas nem todas as diferenças continuarão tendo o mesmo peso

Aqui entra Patricia Kuhl e uma longa tradição de estudos sobre reorganização perceptiva durante o primeiro ano de vida.

Nos primeiros meses, bebês humanos conseguem discriminar muitos contrastes fonéticos que não pertencem à língua que escutam diariamente. Com o avanço do primeiro ano, essa abertura perceptiva muda: a discriminação de muitos contrastes não nativos diminui, enquanto aumenta a especialização para regularidades da língua presente no ambiente. Estudos clássicos situam essa reorganização principalmente entre aproximadamente seis e doze meses. DOI

Isso às vezes é resumido de maneira perigosa como:

“o bebê deixa de ouvir determinados sons.”

Não é exatamente isso.

A diferença física pode continuar presente.

O sistema auditivo continua recebendo energia acústica.

Mas aquela diferença pode deixar de ocupar a mesma fronteira perceptiva ou categorial.

Portanto:

o que deixa de se repetir de maneira funcional no território linguístico pode perder peso relativo naquilo que será percebido como uma diferença importante.

E o contrário também ocorre.

Aquilo que se repete de forma estatisticamente organizada pode ganhar relevância.

Kuhl descreveu essa especialização dentro da ideia de comprometimento neural com os padrões da língua nativa: a experiência facilita progressivamente o processamento das regularidades encontradas com frequência, ao mesmo tempo que pode tornar menos acessíveis algumas distinções não nativas.

Não é simplesmente perda.

É especialização.

O Corpo-Território aprende quais diferenças continuarão sendo diferenças

Esse ponto é particularmente importante para nossa proposta de Corpo-Território.

A criança não nasce sabendo quais fronteiras acústicas serão importantes para a comunidade linguística na qual vive.

Ela encontra distribuições.

Algumas diferenças aparecem repetidamente associadas a consequências linguísticas relevantes.

Outras praticamente nunca são utilizadas para separar palavras naquele território.

Assim, o sistema não aprende apenas:

“este som existe.”

Ele começa a aprender:

“esta diferença importa aqui.”

Talvez aprender uma língua seja, em parte, aprender quais diferenças continuarão valendo como diferença.

Mas ainda falta uma dimensão.

Porque esses sons não se repetem em um espaço neutro.

Onde uma palavra acontece?

Foi justamente esse problema que tornou o Human Speechome Project tão extraordinário.

Deb Roy e sua equipe instrumentaram uma residência com 11 câmeras e 14 microfones, buscando registrar em escala inédita a experiência audiovisual cotidiana de uma criança durante os primeiros anos de desenvolvimento da linguagem. O objetivo era criar um corpus longitudinal extremamente denso daquilo que a criança via e ouvia em casa. MIT Media Lab

A pergunta deixava de ser apenas:

quantas vezes determinada palavra foi pronunciada?

E começava a incluir:

onde?

quando?

durante qual atividade?

em qual sequência?

por quem?

Em trabalhos posteriores derivados desse corpus, Brandon Roy, Michael Frank e Deb Roy analisaram a relação entre o uso das palavras pelos cuidadores, os contextos de atividade e a idade em que determinadas palavras apareciam na produção infantil.

Encontraram algo importante:

frequência importava, mas contexto também.

Palavras usadas mais frequentemente tendiam a ser aprendidas antes, mas palavras concentradas em contextos de atividade mais consistentes também apresentavam aquisição mais precoce. MIT Media Lab

Esse resultado modifica profundamente a ideia simples de repetição.

Não temos apenas:

palavra → muitas repetições → aprendizagem.

Temos:

palavra + atividade + espaço + objetos + pessoas + momento → recorrência situada.

Talvez não seja a palavra que se repete

Imagine a palavra “água”.

Ela pode aparecer diante de um copo.

Quando alguém tem sede.

Durante uma refeição.

Ao abrir uma torneira.

Depois de brincar.

Durante o banho.

Em cada encontro, existe algo semelhante.

Mas não existe exatamente a mesma experiência.

Isso permite uma formulação que consideramos central na BrainLatam:

Nenhum signo entra duas vezes no mesmo Corpo-Território, porque o encontro anterior já participou de sua história.

O sinal pode repetir-se.

O objeto pode parecer o mesmo.

O lugar pode ser semelhante.

Mas aquele que encontra a palavra novamente já foi modificado pelos encontros anteriores.

Portanto, repetição não significa acumular cópias idênticas de um dado.

Repetição produz história.

E história modifica interpretação.

O contexto não vem depois do significado

Há uma imagem comum em que primeiro recebemos uma palavra e depois utilizamos o contexto para descobrir o que ela significa.

O Speechome Project nos permite imaginar algo mais profundo.

Talvez o contexto não seja apenas uma pista acrescentada posteriormente.

Talvez ele participe desde o início da formação daquilo que aquela palavra poderá significar.

Som.

Lugar.

Objeto.

Movimento.

Pessoa.

Necessidade corporal.

Consequência.

Afeto.

A palavra emerge dentro dessa rede.

Os resultados de Roy e colaboradores não demonstram que todas essas dimensões sejam incorporadas diretamente a uma representação neural única. Seria ir além dos dados.

Mas mostram que a estrutura contextual da experiência cotidiana acrescenta poder explicativo além da simples frequência de palavras. MIT Media Lab

E isso conversa diretamente com nossa formulação:

dados não são significado.

A sequência acústica não carrega sozinha aquilo que ela significará para aquele Corpo-Território.

Quando o outro também muda

Há ainda uma segunda dimensão fascinante.

O ambiente linguístico de uma criança não é estático.

Os adultos mudam a maneira como falam com ela.

A fala dirigida ao bebê estudada por Kalashnikova já mostra isso: o outro reorganiza seu próprio sinal diante daquele Corpo.

O experimento de Kuhl, Tsao e Liu acrescenta outra peça.

Bebês americanos de nove meses foram expostos ao Mandarim durante 12 sessões com falantes nativos. Após essa breve exposição social, apresentaram melhora na discriminação fonética do Mandarim. Quando materiais equivalentes foram apresentados por gravação audiovisual ou apenas áudio, o mesmo efeito não apareceu naquele paradigma. DOI

Esse resultado ficou famoso pela ideia de que a interação social pode funcionar como uma espécie de porta para a aprendizagem fonética.

Mas, para Corpo-Território, podemos fazer uma pergunta ainda maior.

Quando o objeto do encontro é outro sujeito, ambos podem modificar o próximo encontro.

O bebê responde.

O adulto modifica voz, ritmo, expressão ou repetição.

O novo sinal encontra um bebê que já não é exatamente o mesmo.

Temos então:

bebê ⇄ cuidador ⇄ sinal ⇄ contexto ⇄ novo encontro.

A linguagem começa a parecer menos uma transferência e mais uma coordenação.

Consciência 5D: a Atenção não cria a diferença

Essa discussão também exige preservar um princípio importante da Consciência 5D.

Uma diferença não precisa estar focalmente atendida para começar a participar da configuração do Corpo-Território.

Atenção pode amplificá-la.

Pode aumentar sua prioridade.

Pode favorecer aprendizagem, resposta ou disponibilidade explícita.

Mas não precisa criar sua existência.

Do mesmo modo, quando um contraste não nativo perde peso perceptivo ao longo do desenvolvimento, não precisamos concluir que sua diferença física deixou de chegar ao organismo.

É mais preciso dizer:

a história daquele Corpo reorganizou o peso relativo daquela diferença.

Isso conecta Kuhl, Kalashnikova e Roy.

Kalashnikova pergunta como determinados sinais são acompanhados neuralmente.

Kuhl mostra que a experiência reorganiza quais diferenças recebem relevância perceptiva.

Roy mostra que essa experiência está distribuída por lugares, atividades e relações.

Talvez aprender uma palavra seja aprender uma trajetória

Assim, talvez a criança não esteja simplesmente armazenando palavras.

Ela está encontrando regularidades entre diferenças.

Certos sons aparecem com certos objetos.

Certas palavras aparecem durante determinadas ações.

Certos lugares concentram determinadas experiências.

Certas pessoas modificam a maneira de falar.

Algumas diferenças fonéticas continuam produzindo distinções úteis.

Outras perdem prioridade.

E cada encontro modifica aquele que encontrará o próximo.

Por isso, talvez a sequência não seja linear:

som → palavra → significado.

Talvez seja algo mais próximo de:

encontro → diferença → recorrência → expectativa → categoria → transformação → novo encontro.

E é nesse movimento que uma palavra pode nascer.

Não necessariamente no instante em que a criança finalmente consegue pronunciá-la.

Esse talvez seja apenas o momento em que nós conseguimos ouvi-la nascer.

Antes disso, já houve centenas de encontros.

Alguns sons repetiram-se.

Algumas diferenças ganharam peso.

Outras perderam prioridade.

Certos lugares tornaram algumas relações mais prováveis.

O outro modificou seu próprio sinal.

A criança modificou-se diante dele.

E a próxima palavra encontrou um Corpo-Território que já carregava os encontros anteriores.

Talvez aprender uma língua seja, portanto, muito mais do que aprender o significado de palavras.

Talvez seja aprender:

quais diferenças importam, em quais territórios elas importam e como cada novo encontro pode mudar aquilo que elas significarão da próxima vez.

Referências

Kalashnikova, M., Fernandez-Merino, L., & Molinaro, N. (2026). Neural encoding of infant-directed speech during infants' first year of life. Developmental Cognitive Neuroscience, 81, 101816. https://doi.org/10.1016/j.dcn.2026.101816
Investiga como o cérebro infantil acompanha a fala dirigida ao bebê, mostrando vantagens de codificação que ajudam a compreender como a forma do sinal social participa da experiência linguística inicial. PubMed

Kuhl, P. K., Tsao, F.-M., & Liu, H.-M. (2003). Foreign-language experience in infancy: Effects of short-term exposure and social interaction on phonetic learning. Proceedings of the National Academy of Sciences, 100(15), 9096–9101. https://doi.org/10.1073/pnas.1532872100
Mostra que uma breve exposição social ao Mandarim pode alterar a discriminação fonética de bebês americanos e que, naquele experimento, exposição equivalente por gravação não produziu o mesmo efeito. DOI

Werker, J. F., & Tees, R. C. (1984). Cross-language speech perception: Evidence for perceptual reorganization during the first year of life. Infant Behavior and Development, 7(1), 49–63. https://doi.org/10.1016/S0163-6383(84)80022-3
É uma referência clássica sobre a reorganização perceptiva no primeiro ano, mostrando declínio na discriminação de determinados contrastes não nativos em função da experiência linguística. ScienceDirect

Roy, D., Patel, R., DeCamp, P., et al. (2006). The Human Speechome Project. Proceedings of the Cognitive Science Society.
Apresenta o projeto de observação longitudinal em escala inédita que instrumentou uma residência para registrar densamente o ambiente audiovisual no qual a linguagem de uma criança se desenvolvia. MIT Media Lab

Roy, B. C., Frank, M. C., & Roy, D. (2012). Relating Activity Contexts to Early Word Learning in Dense Longitudinal Data. Proceedings of the 34th Annual Conference of the Cognitive Science Society.
Mostra que frequência de uso e consistência contextual predizem a idade de aquisição de palavras, indicando que aprender linguagem depende não apenas de quantas vezes uma palavra aparece, mas também de como ela se distribui pelas atividades cotidianas. MIT Media Lab

Roy, B. C., Frank, M. C., DeCamp, P., Miller, M., & Roy, D. (2015). Predicting the birth of a spoken word. Proceedings of the National Academy of Sciences, 112(41), 12663–12668. https://doi.org/10.1073/pnas.1419773112
Utiliza o corpus ultradenso do Speechome Project para mostrar que palavras encontradas em contextos espaciais, temporais e linguísticos mais distintivos tendem a surgir mais cedo na produção da criança, reforçando a importância do contexto multimodal na aprendizagem lexical. PubMed Central (PMC)








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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States